Uma startup de biotecnologia anunciou na terça-feira que conseguiu chocar pintinhos vivos dentro de um ambiente totalmente artificial, chamado ovo artificial. O feito gerou reações mistas entre cientistas, que alertam para as limitações da tecnologia e questionam se ressuscitar espécies extintas é realmente viável.
A Colossal Biosciences apresentou 26 filhotes de galinha, com idades entre poucos dias e vários meses, nascidos de uma estrutura impressa em 3D que imita um ovo. O CEO Ben Lamm afirmou que esse sistema poderia eventualmente incubar ovos gigantescos, como os da extinta ave-gigante moa da Nova Zelândia, cujos ovos são 80 vezes maiores que os de uma galinha e impossíveis de serem postos por qualquer ave moderna.
O que a empresa realmente criou?
Para gerar os pintinhos, os cientistas despejaram ovos fertilizados no sistema artificial e os colocaram em uma incubadora especial. Também adicionaram cálcio, elemento normalmente absorvido pela casca verdadeira, e monitoraram em tempo real o desenvolvimento dos embriões.
A estrutura desenvolvida pela Colossal funciona com uma membrana que permite a entrada da quantidade correta de oxigênio, replicando o que acontece em um ovo natural. O sistema também controla a troca gasosa e a hidratação do embrião em desenvolvimento.
Os cientistas alertam sobre exageros
Porém, pesquisadores independentes apontam falhas cruciais naquilo que a empresa chama de “ovo artificial”. Vincent Lynch, biólogo evolucionista da Universidade de Buffalo, criticou diretamente o termo utilizado pela startup.
“Eles podem usar essa tecnologia para criar uma ave geneticamente modificada, mas isso é só uma ave geneticamente modificada”, afirmou Lynch. “Não é uma moa.”
O principal problema é que um ovo biológico possui estruturas temporárias que nutrem o embrião em crescimento, estabilizam o desenvolvimento e eliminam resíduos metabólicos. Nenhuma dessas funções foi replicada no sistema da Colossal. Trata-se, portanto, de uma casca artificial, não de um ovo artificial completo.
Nicola Hemmings, pesquisadora de biologia reprodutiva de aves na Universidade de Sheffield, foi além. “Produzir um pintinho a partir de um recipiente artificial não é necessariamente uma novidade”, comentou. “Pesquisadores já fizeram isso há décadas com tecnologias mais rudimentares, usando plásticos e sacos.”
O caminho para ressuscitar espécies extintas
A Colossal não começou do zero. A empresa já anunciou anteriormente ter criado geneticamente camundongos com pelos longos como os da lã de mamute e filhotes de lobo que lembram direwolves extintos. Agora, a meta é aplicar essa expertise para recriar a moa, ave que desapareceu há centenas de anos na Nova Zelândia.
Mas existe uma longa jornada pela frente. Cientistas precisarão primeiro comparar DNA antigo de ossos bem preservados de moas com genomas de espécies vivas de aves. Depois, terão de lidar com desafios de engenharia biológica muito maiores do que os enfrentados até agora.
Ben Lamm justificou a pressa em testar a tecnologia mesmo sem estar completamente pronta. “Não queríamos esperar até estar prontos para nascer uma moa gigante. Queríamos começar a trabalhar nos desafios de engenharia de gestação e nascimento agora”, disse.
Questões éticas e ecológicas permanecem
Arthur Caplan, bioético da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova York, levantou uma preocupação fundamental: em que ambiente exatamente essa ave ressuscitada viveria?
“O grande desafio é saber qual ambiente esse animal vai habitar”, apontou Caplan. A paisagem da Nova Zelândia mudou drasticamente desde o desaparecimento da moa. Florestas foram substituídas por pastagens, e predadores humanos moldaram completamente o ecossistema.
Hemmings acredita que os esforços de ressurreição talvez fizessem mais sentido se focados em espécies atualmente ameaçadas de extinção. “Meu interesse pessoal está mais em preservar o que temos do que tentar trazer de volta o que já se foi”, afirmou a pesquisadora.
Fonte: https://www.sciencealert.com/de-extinction-company-says-its-hatched-chicks-from-artificial-eggshells






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