Tarântulas (família Theraphosidae) possuem capacidades cognitivas muito mais avançadas do que tradicionalmente se acreditava. Um novo estudo liderado pelo aracnólogo Alireza Zamani, da Universidade de Turku, demonstra que essas aranhas apresentam habilidades de navegação espacial surpreendentes que sugerem comportamento aprendido.
Inteligência e memória espacial em tarântulas
Pesquisas anteriores já indicavam que tarântulas conseguem aprender a evitar estímulos desagradáveis, navegar por labirintos complexos e lembrar localizações espaciais ao longo do tempo. Entretanto, o novo trabalho fornece evidências ainda mais robustas dessa capacidade. “Essas habilidades sugerem que seus sistemas nervosos apoiam comportamentos mais flexíveis do que tradicionalmente assumido”, explica Zamani em comunicado de imprensa.
Zamani analisou nove casos de aparente orientação espacial em tarântulas selvagens coletadas durante levantamentos de campo. Os dados foram compilados pelo co-autor Rick C. West, uma autoridade independente em tarântulas, junto com outros pesquisadores. Coletivamente, esses casos indicam que tanto tarântulas que vivem em tocas quanto as que vivem em árvores conseguem navegar propositalmente recordando informações aprendidas sobre seus ambientes.
Casos reais de navegação em tarântulas
Os exemplos observados em campo ilustram claramente essa capacidade cognitiva. Uma tarântula-rosa-da-guiana adulta (Avicularia avicularia) deixava seu refúgio nos painéis de um edifício na Guiana Francesa, viajava cerca de 1,8 metros, fazia uma curva de 90 graus para a esquerda e forrajeava em insetos voadores ao redor de uma luz, retornando depois ao seu ninho. Dessa forma, demonstrava conhecimento preciso de sua rota.
Igualmente impressionante, uma tarântula-do-deserto-dos-buracos adulta (Aphonopelma iodius) em Nevada foi observada forrageando no chão à noite, seguindo um caminho em linha reta com mais de 1,8 metros diretamente de volta para sua toca. Consequentemente, revela uma capacidade de memória espacial notável. Além disso, uma tarântula-azul-do-méxico subadulta (Bonnetina cf. cyaneifemur) foi similarmente observada indo diretamente para sua base após uma perturbação.
Como as tarântulas navegam pelo ambiente
Essa demonstração clara de consciência espacial contribui para a capacidade das tarântulas de escapar do perigo e caçar com sucesso, retornando a lugares ricos em alimento, como luzes artificiais. Os autores do estudo hipotetizam que tarântulas usam uma combinação de informações aprendidas de suas jornadas de ida. Essas informações poderiam incluir posição de luz, luz polarizada, padrões de tensão de teia e até mesmo gravidade.
Ainda mais notável, até uma tarântula cega que vive em cavernas (Hemirrhagus sp.) demonstrou a capacidade de retornar a um refúgio quando ameaçada pela presença humana. Portanto, os pesquisadores propõem que sinais internos do corpo devem fazer parte da equação de navegação também.
Implicações para a compreensão das aranhas
Esses achados desafiam a percepção comum de que aranhas são meros autômatos biológicos. No entanto, mudanças na compreensão científica sobre a cognição desses animais levantam questões fascinantes sobre como sistemas nervosos tão pequenos conseguem realizar tarefas cognitivas complexas.
Curiosamente, toda essa inteligência torna as tarântulas ainda mais material eficaz para filmes de horror. A combinação de sua capacidade de aprender, lembrar e navegar propositalmente por ambientes os torna predadores formidáveis tanto na natureza quanto na imaginação humana. Além disso, compreender a cognição dessas aranhas contribui para apreciarmos melhor a diversidade de inteligência presente no reino animal.
Matéria original: https://nautil.us/arachnophobes-beware-tarantulas-are-way-smarter-than-you-think-1279979/






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