O papel das poliaminas no envelhecimento e no câncer
As poliaminas são moléculas produzidas naturalmente e presentes em todas as células vivas. Elas desempenham um papel vital nas funções biológicas básicas, como o crescimento e a especialização celular. Além disso, nos últimos anos, cientistas têm focado nesses compostos, especialmente na espermidina, devido ao seu potencial para apoiar o envelhecimento saudável. Frequentemente descritas como “geroprotetores”, essas moléculas estimulam a autofagia, um processo celular de reciclagem que elimina componentes danificados. Esse benefício depende em grande parte de uma proteína chamada fator de iniciação da tradução eucariótica 5A (eIF5A1).
Entretanto, pesquisadores notaram, repetidamente, níveis elevados de poliaminas em muitos tipos de câncer, onde essas moléculas estão relacionadas ao crescimento agressivo dos tumores. Portanto, surge um enigma científico: como as mesmas moléculas associadas à longevidade também podem favorecer o câncer?
O enigma molecular no metabolismo do câncer
Embora a relação entre poliaminas e câncer seja conhecida há anos, os mecanismos detalhados que explicam seu papel na progressão tumoral ainda permaneciam obscuros. Células cancerígenas alteram seu metabolismo, dependem fortemente da glicólise aeróbica para gerar energia rapidamente. Por exemplo, os pesquisadores queriam entender como as poliaminas influenciam essa mudança metabólica.
Para complicar, o eIF5A1 tem funções bem estabelecidas em células saudáveis. Por outro lado, uma proteína muito próxima, eIF5A2, compartilha 84% da sequência de aminoácidos, mas está ligada ao desenvolvimento do câncer. Portanto, entender por que duas proteínas quase idênticas se comportam de forma tão distinta é crucial.
Análise proteômica revela caminhos distintos
Para investigar essa questão, um grupo liderado pelo Professor Associado Kyohei Higashi, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Tokyo University of Science, no Japão, realizou um estudo aprofundado utilizando métodos moleculares e proteômicos avançados. Suas descobertas foram publicadas no Journal of Biological Chemistry (Volume 301, Edição 8). Assim, eles esclareceram como as poliaminas estimulam o crescimento das células cancerígenas por vias biológicas diferentes daquelas envolvidas no envelhecimento saudável.
Os pesquisadores trabalharam com linhas celulares humanas de câncer para analisar o impacto das poliaminas na produção de proteínas e no metabolismo. Primeiro, reduziram os níveis de poliaminas com um medicamento; em seguida, restauraram esses níveis adicionando espermidina. Essa estratégia permitiu medir diretamente os efeitos das poliaminas nas células cancerígenas. Utilizando técnicas proteômicas de alta resolução, eles analisaram mudanças em mais de 6.700 proteínas.
Os resultados indicaram que as poliaminas aumentam principalmente a glicólise, processo que converte rapidamente a glicose em energia, em vez de melhorar a respiração mitocondrial, associada ao envelhecimento saudável. Além disso, observaram que as poliaminas elevam os níveis de eIF5A2 e cinco proteínas ribossomais, incluindo RPS 27A, RPL36AL e RPL22L1, todas relacionadas à gravidade do câncer.
eIF5A1 versus eIF5A2 em células normais e cancerígenas
O estudo comparou diretamente o eIF5A1 e o eIF5A2, revelando insights importantes. “A atividade biológica das poliaminas via eIF5A difere entre tecidos normais e cancerígenos”, explica o Dr. Higashi. “Nos tecidos normais, o eIF5A1, ativado pelas poliaminas, estimula as mitocôndrias por meio da autofagia; por outro lado, nos tecidos cancerígenos, o eIF5A2, cuja síntese é promovida pelas poliaminas, regula a expressão genética em nível translacional para facilitar a proliferação dos cânceres.”
Ou seja, as poliaminas desencadeiam efeitos muito diferentes dependendo da proteína que influenciam: em células saudáveis, elas promovem a manutenção e produção de energia; entretanto, nas células cancerígenas, auxiliam o crescimento rápido do tumor.
Para saber mais
Essa descoberta apresenta uma nova perspectiva para a compreensão tanto do envelhecimento quanto do câncer. Além disso, pode abrir caminhos para terapias inovadoras que equilibram os efeitos benéficos e prejudiciais das poliaminas. Por exemplo, na terapia celular contra o câncer, essas informações podem ser cruciais para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.
Além disso, a relação entre as proteínas e os processos celulares pode impactar pesquisas em longevidade humana, ampliando nosso entendimento sobre os mecanismos do envelhecimento e como potencialmente retardá-lo.
Matéria original: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/03/260302030657.htm






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