Milhões de pacientes no mundo recebem beta bloqueadores rotineiramente após sofrer infarto, mas um grande ensaio clínico de 2025 questiona essa prática que dura 40 anos. A pesquisa, apresentada no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, sugere que muitos pacientes com infarto simples e coração ainda bombeando bem podem estar tomando um remédio inútil e potencialmente prejudicial.
Um medicamento questionado
O estudo REBOOT, coordenado pelo cardiologista Valentin Fuster do Hospital Fuster do Monte Sinai em Nova York e do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares da Espanha, acompanhou 8.505 pacientes em 109 hospitais da Espanha e Itália. Metade recebeu beta bloqueadores após sair do hospital; a outra metade não recebeu. Todos tiveram acesso aos tratamentos modernos padrão, como statinas e medicamentos antiagregantes plaquetários.
O resultado foi surpreendente: os beta bloqueadores não reduziram significativamente mortes, reinfartos ou internações por insuficiência cardíaca em pacientes cuja função cardíaca estava preservada. Para um remédio prescrito tão amplamente há tanto tempo, essa falta de benefício representa um ponto de virada.
O que mudou na medicina cardíaca?
Beta bloqueadores entraram na rotina pós-infarto em uma época muito diferente. Nos anos 1980 e 1990, quando essa prática começou, os pacientes enfrentavam esperas longas para desobstrução das artérias coronárias. Hoje, artérias bloqueadas são reabertas rapidamente com procedimentos minimamente invasivos. Os pacientes também recebem medicamentos potentes como estatinas e antiagregantes que reduzem drasticamente o risco de complicações.
Nesse cenário transformado, a questão óbvia emerge: beta bloqueadores ainda protegem pacientes cujos corações estão bombeando normalmente? O estudo REBOOT respondeu: não.
“Este ensaio vai reformular todas as diretrizes clínicas internacionais”, afirma Fuster. A pesquisa foi conduzida sem financiamento da indústria farmacêutica, aumentando a credibilidade dos achados.
Impacto prático na vida dos pacientes
Atualmente, mais de 80% dos pacientes com infarto simples saem do hospital em uso de beta bloqueadores. Se muitos não se beneficiam realmente, os médicos poderiam reduzir medicações desnecessárias, limitar efeitos colaterais e simplificar a recuperação.
Beta bloqueadores causam fadiga, redução da frequência cardíaca e disfunção sexual em uma parcela significativa de pacientes. Para alguém que já toma múltiplos medicamentos após um infarto, remover um remédio inútil pode melhorar substancialmente a qualidade de vida e facilitar a adesão ao tratamento.
“REBOOT vai mudar a prática clínica em todo o mundo”, declara Borja Ibáñez, investigador principal do estudo. “Representa um dos avanços mais significativos no tratamento do infarto em décadas.”
Sinal de alerta especial para mulheres
Um achado preocupante emerge de uma análise complementar publicada no European Heart Journal. Mulheres que receberam beta bloqueadores apresentaram risco aumentado de morte, infarto recorrente ou internação por insuficiência cardíaca comparadas com mulheres que não tomaram o medicamento. Em homens, esse risco aumentado não foi observado.
O padrão foi especialmente notável em mulheres com função cardíaca completamente normal após o infarto. Nesse grupo, mulheres tratadas com beta bloqueadores tiveram 2,7% maior risco absoluto de morte durante 3,7 anos de acompanhamento em relação às não tratadas. Mulheres com função cardíaca levemente reduzida não mostraram o mesmo risco excessivo.
O achado não significa que pacientes devem interromper medicações por conta própria. Sugere, porém, que prescrições padronizadas após infarto podem precisar ceder espaço a decisões mais personalizadas, especialmente para pacientes com função cardíaca preservada.
O debate que enfrentava-se raramente
Ibáñez destaca que testes rigorosos de novos medicamentos são comuns, mas questionar a necessidade contínua de tratamentos antigos é raro. Beta bloqueadores foram adicionados ao tratamento padrão quando ofereciam redução significativa de mortalidade. Seus benefícios vinham da redução da demanda de oxigênio do coração e prevenção de arritmias. Com terapias modernas e reabertura rápida de artérias, o dano cardíaco é menor e o risco de arritmias cai drasticamente.
“O ensaio foi desenhado para otimizar o cuidado do infarto com base em evidências científicas sólidas e sem interesses comerciais”, ressalta Ibáñez. O REBOOT não recebeu financiamento da indústria farmacêutica.
Outros grandes estudos recentes, como o REDUCE-AMI de 2024, também questionaram o uso rotineiro de beta bloqueadores em pacientes com função cardíaca preservada, reforçando a necessidade de reavaliação dessa prática estabelecida há décadas na cardiologia.
Foto: Marta Branco no Pexels
Matéria original: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/05/260524021151.htm






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