Como a Fragmentação Molda os Tecidos e Órgãos
Existe um momento, pouco antes do embrião de camundongo em desenvolvimento implantar-se no útero, em que tudo se desmancha. Além disso, centenas de pequenas bolhas cheias de fluido surgem entre as poucas dezenas de células desse embrião.
Essas bolhas crescem e exercem pressão nas membranas celulares — entretanto, em um instante de fratura, elas acabam afastando as células umas das outras. Fibras finas de proteína mantêm as células conectadas enquanto o embrião dissociado flutua. Ao longo de algumas horas, as bolhas menores se fundem em outras maiores até o fluido se concentrar em uma única cavidade.
Portanto, com essa característica definidora, o zigoto torna-se blastocisto, pronto para se incorporar na parede do útero. Dentro dessa esfera oca de células, moldada pela fratura, um feto irá se desenvolver.
Um Processo Controlado de Fratura
“É uma fratura, mas não do jeito que se pode imaginar”, explicou Hervé Turlier, físico do Collège de France, em Paris, e membro da equipe que caracterizou esse processo em embriões de camundongo.
Normalmente, as fraturas são linhas de falha que se propagam aleatoriamente sob tensão e ocorrem em materiais inertes, como gelo, pedra ou concreto. Entretanto, as fraturas observadas nos embriões apresentam características diferentes. Elas surgem por meio de um processo mecânico rigorosamente controlado, guiado por diferenças na tensão física e nas ligações entre as células.
Além disso, essas fraturas são temporárias: logo após a separação, as células se unem novamente em poucas horas. Essas fraturas são construtivas, esculpindo novas formas a partir dos tecidos em desenvolvimento, num mecanismo evolutivo que pesquisadores estão descobrindo em diversos animais.
Forças Que Moldam os Tecidos
Modelar tecidos exige a ação de forças — isso é claro para os físicos que estudam a biologia microscópica há décadas. Desde os primeiros momentos da vida, as células que se multiplicam são comprimidas, esticadas e puxadas para formar tecidos que se dobram e torcem, dando origem a órgãos que se expandem e contraem.
Michel Milinkovitch, biólogo teórico da Universidade de Genebra, Suíça, observou ainda a fratura mecânica na formação da pele do elefante africano. Portanto, a mecânica tem papel essencial na formação e no desenvolvimento dos organismos.
Matéria original: https://www.quantamagazine.org/break-it-to-make-it-how-fracturing-sculpts-tissues-and-organs-20260227/






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