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Esperma de laboratório pode devolver paternidade a homens inférteis

Startup promete cultivar esperma em laboratório para homens inférteis. Técnica pode revolucionar medicina reprodutiva, mas pesquisadores permanecem céticos.

Ilustração científica mostrando espermatozoides rodeando um ovulo.
Ilustração científica mostrando espermatozoides rodeando um ovulo.

Uma startup americana promete transformar a vida de milhões de homens que não conseguem produzir esperma naturalmente. A Paterna Biosciences desenvolveu uma técnica capaz de cultivar células de esperma em laboratório a partir de tecido dos testículos, abrindo perspectivas para casais que enfrentam infertilidade sem alternativas.

A infertilidade masculina afeta mais pessoas do que se imagina. Aproximadamente uma em cada dez casais enfrenta dificuldades para conceber, e em metade desses casos o problema está ligado ao esperma. Enquanto tratamentos convencionais como a injeção intracitoplasmática de esperma funcionam bem para homens com baixa contagem ou esperma com mobilidade reduzida, existe um grupo para o qual a medicina reprodutiva ainda não encontrou solução: aqueles que simplesmente não produzem esperma.

O que promete a Paterna Biosciences

A empresa afirma conseguir extrair pequenos fragmentos de tecido testicular e transformá-los em milhares de células de esperma funcionais dentro de um mês em ambiente controlado. Alex Pastuszak, cofundador da companhia, explica que sua equipe identificou os sinais biológicos que ativam o processo de formação de esperma a partir das células-tronco.

A descoberta é potencialmente revolucionária porque atinge um mercado praticamente abandonado pela medicina convencional. Enquanto cerca de um em cada cem homens não possui nenhum esperma em seu sêmen, a maioria dos casos resulta de uma produção insuficiente nos testículos, não de obstrução. Nesses pacientes, nenhuma cirurgia ou extração direta consegue resolver o problema.

Paterna afirma que seus espermatozoides cultivados foram capazes de fertilizar óvulos humanos, que se desenvolveram em embriões primitivos. Se confirmado independentemente, esse resultado representaria um avanço sem precedentes na medicina reprodutiva.

O ceticismo da comunidade científica

Apesar do otimismo, a comunidade científica permanece cautelosa. Paterna ainda não publicou dados que respaldem suas afirmações, justificando a decisão com proteção de propriedade intelectual. Essa postura ressoa com um precedente preocupante: a empresa francesa Kallistem fez promessas similares em 2015, publicou um artigo em 2016, mas seus resultados não convenceram pesquisadores independentes e o projeto desapareceu do radar científico.

Geert Hamer, do Instituto de Pesquisa em Reprodução e Desenvolvimento de Amsterdam, reconhece que a Paterna possui cientistas capacitados e que tecnicamente seria possível alcançar o resultado anunciado. Contudo, reserva seu julgamento até ver evidências concretas. “Se fizeram o que afirmam, é um avanço monumental”, comenta.

Os riscos biológicos silenciosos

Mesmo que a técnica funcione como prometido, questões de segurança pairam sobre seu uso clínico. Durante a formação natural de esperma, as células-tronco testiculares sofrem divisões precisas onde uma célula permanece como tronco enquanto a outra passa por meiose, um processo onde cromossomos trocam trechos de DNA.

Miles Wilkinson, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego especializado em células-tronco de esperma, alerta que essa é uma “situação muito perigosa”. Se o DNA se romper durante a meiose, existe risco de não ser reparado corretamente. Condições de laboratório imperfeitas poderiam aumentar esse risco durante o procedimento da Paterna. Felizmente, embriões de fertilização in vitro podem ser testados antes da implantação para detectar mutações resultantes de meiose defeituosa.

Outro perigo reside nos erros de imprinting, processo onde certos genes no esperma são silenciados por marcadores químicos durante o desenvolvimento. Falhas nesse mecanismo causam sérias condições de desenvolvimento. Embora erros de imprinting apareçam frequentemente em esperma de camundongos derivado de células-tronco artificiais, Hamer acredita que o risco é baixo quando se usam células-tronco naturais dos testículos, como faz a Paterna.

Pastuszak sustenta que o esperma cultivado em laboratório parece normal. Ele afirma que o esperma criado in vitro se assemelha molecularmente ao esperma formado naturalmente nos testículos, chegando em alguns casos a parecer “até melhor”.

O debate sobre edição genética

Especialistas apontam um cenário que complica ainda mais o futuro dessa tecnologia: sua combinação com edição genética via CRISPR. Se a técnica de cultivo funcionar, mas apresentar limitações em certas condições genéticas, pressões econômicas e sociais poderiam levar ao uso de edição gênica para “melhorar” os espermatozoides cultivados.

Esse caminho abriria debates éticos profundos sobre modificação germinal em humanos, algo que permanece altamente controverso na comunidade científica global. A possibilidade de criar crianças geneticamente editadas coloca a questão além do simples tratamento da infertilidade para entrar em território de aprimoramento genético.

Por enquanto, a Paterna Biosciences permanece em fase de testes, prometendo resultados que a comunidade científica aguarda com interesse cauteloso. Se as afirmações forem comprovadas, milhões de homens poderão finalmente enfrentar a infertilidade com esperança genuína. Se não forem, será mais uma promessa não cumprida na longa história de esperança e decepção na medicina reprodutiva.

Foto: Nadezhda Moryak no Pexels

Matéria original: https://www.newscientist.com/article/2527809-will-lab-grown-sperm-let-infertile-men-have-children-of-their-own/?utm_campaign=RSS%7CNSNS&utm_source=NSNS&utm_medium=RSS&utm_content=home

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