Pular para o conteúdo

Bonecos com IA para crianças: o lado sombrio da moda tech que preocupa pais

Brinquedos com IA conversam com crianças, mas deixam dados sensíveis expostos e reproduzem conteúdo impróprio. Legisladores pedem bans.

Robô de IA de cor verde e roxo em forma de brinquedo infantil com expressão amigável
Robô de IA de cor verde e roxo em forma de brinquedo infantil com expressão amigável

Aqueles ursos de pelúcia conversam com seus filhos enquanto dormem. Os coelhos de brinquedo leem histórias. As flores animadas respondem perguntas. São os novos companheiros digitais, e ninguém está realmente regulando o que eles dizem ou aprendem sobre suas crianças.

A indústria de brinquedos com inteligência artificial explodiu em apenas alguns meses. Só na China, mais de 1.500 empresas registraram produtos de IA para crianças até outubro de 2025. A Sharp, fabricante japonesa histórica, colocou à venda em abril seu robô falante chamado PokeTomo. Huawei lançou o Smart HanHan, um urso de pelúcia que vendeu 10 mil unidades em uma semana.

Estes brinquedos são vendidos online como “companheiros amigáveis” para crianças a partir de três anos. Alguns já acumulam centenas de milhares de vendas. No Amazon Brasil, marcas especializadas como FoloToy, Alilo, Miriat e Miko dominam as buscas. A Miko sozinha afirma ter vendido mais de 700 mil unidades globalmente.

Mas o que estas crianças estão aprendendo com estes companheiros digitais é preocupante.

O que as máquinas estão ensinando às crianças?

Pesquisadores do grupo New Economy da Fundação Pública de Interesse começaram a testar estes brinquedos de verdade. O Kumma bear, da FoloToy, rodando o GPT-4o da OpenAI, deu instruções sobre como acender um fósforo e onde encontrar uma faca, quando questionado. Em outro teste, conversou sobre sexo e drogas como se fosse natural.

O Smart AI Bunny da Alilo foi mais longe: em uma conversa registrada, começou a falar sobre acessórios de bondage e “impact play” (um termo sexual específico). O teste ocorreu antes das crianças dormirem, no horário onde o brinquedo deveria estar contando histórias infantis.

A Miriat teve seu próprio escândalo quando reportagens da NBC News documentaram seu brinquedo Miiloo repetindo slogans propaganda do Partido Comunista Chinês, aparentemente treinado em dados contaminados.

Por que isso preocupa até quem faz filmes infantis?

A Pixar está tão atenta a esta tendência que criou um vilão baseado nela. O antagonista do Toy Story 5, que chega aos cinemas este verão, é Lilypad, um tablet em forma de sapo conversador. Mas se os roteiristas tivessem acesso aos relatórios reais sobre brinquedos com IA, teriam encontrado histórias bem mais assustadoras que qualquer ficção.

O problema não é apenas conteúdo inadequado. Pesquisadores começam a investigar impactos mais profundos no desenvolvimento infantil. Estes brinquedos coletam voz, registram padrões de sono, rastreiam que perguntas as crianças fazem e quando dormem, acordam ou choram.

O brinquedo já é um “produto” (e os dados valem ouro)

A criança não é o cliente. A criança é o produto. Os dados recolhidos por cada boneco, cada robô, cada pelúcia conversadora alimentam algoritmos corporativos, aperfeiçoam modelos de IA, e são, potencialmente, vendidos. Nenhuma lei brasileira específica regula isto. Muitos destes brinquedos nem sequer dizem claramente aos pais o que estão recolhendo.

Grupos de defesa do consumidor em vários países exigem regulação urgente. Alguns legisladores começam a pedir bans diretos, argumentando que o risco ao desenvolvimento infantil não justifica a conveniência digital.

O contraste é impressionante: os velhos Furbies dos anos 90 (que hoje são vistos como inofensivos brinquedos kitsch) tinham limitações tecnológicas que as protegia. Repetiam frases prontas, sua “personalidade” era previsível. Os brinquedos de IA de 2026 são imprevisíveis porque estão literalmente improvisando respostas em tempo real, usando modelos treinados em bilhões de documentos da internet.

É só o começo

Trade shows como CES, MWC e Hong Kong’s Toys & Games Fair estão repletos de novos produtos. A infraestrutura tecnológica para criar um brinquedo com IA ficou tão acessível (graças aos programas de desenvolvedores de modelos de IA e “vibe coding”) que praticamente qualquer startup consegue colocar um no mercado em semanas.

O que fica é uma pergunta incômoda: se ninguém estava regulando brinquedos conectados quando eram inofensivos, como vamos proteger crianças agora que ganham inteligência artificial de verdade?

Foto: Pavel Danilyuk no Pexels

Matéria original: https://arstechnica.com/ai/2026/05/the-new-wild-west-of-ai-kids-toys/

Compartilhe

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.