Micro-organismos que Desarmam Proteínas do Amendoim
Bactérias que vivem naturalmente em nossa boca e intestinos podem desarmar as proteínas que causam reações alérgicas ao amendoim, revelou um novo estudo. Além disso, essa descoberta abre caminho para futuros tratamentos que poderão ajudar pessoas com alergia grave a suportarem melhor a exposição ao amendoim.
Identificação dos Microbes: Rothia e Staphylococcus
Uma equipe de cientistas da Universidade Autônoma de Madri, na Espanha, e da Universidade McMaster, no Canadá, identificou dois micro-organismos com essa habilidade única: Rothia e Staphylococcus. Essas bactérias, presentes normalmente na saliva e no intestino delgado, conseguem quebrar as proteínas do amendoim responsáveis pela anafilaxia, uma reação alérgica grave e potencialmente fatal.
Importância da Descoberta para a Saúde Pública
Por exemplo, a anafilaxia é a principal razão para escolas proibirem o consumo de amendoim. Embora até 2% da população na Europa e nos EUA tenha alergia ao amendoim, as taxas são ainda maiores entre crianças — para as quais o risco de morte é significativamente maior. Portanto, entender como o microbioma pode modular essa alergia é essencial para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.
A Reação Alérgica ao Amendoim
A alergia ocorre quando o corpo identifica erroneamente um perigo. Entretanto, a anafilaxia ao amendoim se caracteriza por uma reação exagerada do sistema imunológico. Apesar do amendoim representar perigo limitado para o corpo — devido à dificuldade das enzimas digestivas em quebrá-lo — o risco maior provém da resposta imunológica intensa.
Pessoas com alergia severa produzem grandes quantidades de anticorpos chamados imunoglobulina E (IgE) ao entrarem em contato com proteínas específicas do amendoim, como Ara h 1 e Ara h 2. Esse processo desencadeia inflamação robusta, que pode causar o fechamento da garganta e queda da pressão arterial, caracterizando o choque anafilático.
Estudo Clínico com Crianças
Em um estudo clínico envolvendo 19 crianças de 1 a 14 anos com alergia ao amendoim, os pesquisadores investigaram a relação entre a microbiota oral e a tolerância ao alérgeno. Além disso, essas crianças estavam inscritas para imunoterapia oral — um tratamento experimental que visa dessensibilizar pacientes.
Antes do tratamento, a equipe coletou amostras da saliva para analisar o perfil do microbioma oral. Em seguida, realizaram testes para avaliar a gravidade da reação às proteínas do amendoim. Notavelmente, crianças com maior presença das bactérias capazes de degradar essas proteínas apresentaram tolerância aumentada e respostas alérgicas menos severas.
Por outro lado, pacientes com baixa tolerância tinham níveis reduzidos de bactérias do grupo Micrococcales, que inclui Rothia e Micrococcus, ambas eficientes na quebra das proteínas alergênicas.
“Esses resultados sugerem que a microbiota oral pode funcionar como um marcador preditivo da reatividade ao amendoim, evidenciando a importância do metabolismo microbiano dos alérgenos em reações mediadas por IgE”, destacam os pesquisadores.
Experimentos com Camundongos
Em testes com camundongos propensos à anafilaxia ao amendoim, os cientistas demonstraram que Rothia e Staphylococcus conseguem degradar as proteínas Ara h 1 e Ara h 2, diminuindo os gatilhos que ativam o sistema imune. Além disso, ao administrar doses significativas de Rothia, as reações anafiláticas dos roedores ficaram muito menos severas.
Portanto, esse estudo aponta que manipular o microbioma pode ser um caminho promissor no futuro para o manejo da alergia ao amendoim.
Importância para Outros Campos da Ciência
Além disso, entender o papel do microbioma em alergias alimentares pode ajudar a avançar em outros tratamentos relacionados, como terapia celular contra o câncer e intervenções para reduzir o estresse. Portanto, ao aprofundar o conhecimento desses micro-organismos, amplia-se a possibilidade de revolucionar a medicina e a saúde humana.
Matéria original: https://www.sciencealert.com/microbes-that-disarm-peanut-allergy-proteins-discovered-in-mouth-and-gut






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