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DNA de pangolins revela onde criminosos caçam espécies mais traficadas do mundo

DNA de pangolins revela onde criminosos caçam a espécie mais traficada ilegalmente do mundo e como redes de tráfico estão conectadas.

Pangolim enroscado mostrando suas escamas sobrepostas em padrão protetor
Como testes de DNA estão ajudando a preservação dos Pangolins?

Cientistas usaram material genético de pangolins para mapear pela primeira vez os pontos de captura ilegal desses animais blindados. Um estudo publicado na revista PLOS Biology rastreou o DNA de mais de 700 pangolins confiscados ou armazenados em museus, identificando as regiões onde a caça ocorre com maior intensidade.

O trabalho, liderado por pesquisadores da Universidade de Toulouse, mapeou três espécies de pangolim que sofrem maior pressão: o de Sunda, o chinês e o de barriga branca. Cada amostra foi rastreada até sua origem geográfica provável, revelando focos de exploração ilegal no sudoeste de Mianmar, Camarões e várias localidades na África.

Por que os pangolins estão desaparecendo?

Pangolins são mamíferos noturnos e solitários, tão elusivos que raramente são vistos em estado selvagem. Mas essa raridade não os protege. Sua carne é apreciada como alimento, suas escamas são moídas para medicinas tradicionais na Ásia e África subsaariana, e sua pele virou matéria-prima para produtos de couro.

Quando ameaçados, esses animais enroscam-se numa bola impenetrável que pesa apenas 2,3 quilos. Uma defesa eficaz contra leopardos e pítons. Totalmente inútil contra caçadores armados.

O resultado é que pangolins viraram os mamíferos mais traficados ilegalmente do planeta, superando até elefantes e rinocerontes em volume. Ninguém esperaria isso de criaturas tão discretas.

Como DNA de amostras antigas e apreensões resolveu um mistério de décadas?

A grande dificuldade do trabalho foi conseguir material genético de qualidade. Pangolins são raros, dispersos e noturnos. Os pesquisadores resolveram isso de forma criativa: analisaram DNA degradado de espécimes em coleções de museus e de carnes silvestres confiscadas por autoridades alfandegárias.

Do material sequenciado, extraíram 671 marcadores genéticos que permitiram construir uma árvore genealógica dos pangolins capturados. Cada indivíduo fornecia uma pista sobre onde havia sido apanhado.

“Integrar material de arquivo com amostras recentes do campo e de apreensões permitiu preencher lacunas geográficas que existiam há décadas”, explicou Philippe Gaubert, geneticista de conservação do Institut de Recherche pour le Développement, que liderou o estudo.

Uma descoberta perturbadora: tráfico local alimenta tráfico internacional

O mapa genético revelou algo inesperado. O comércio doméstico de pangolins permanece amplamente local, com caçadores vendendo para intermediários em suas próprias regiões. Mas essas mesmas áreas rurais também abastecem redes de tráfico internacional.

Não há, portanto, mercados separados. Há uma cadeia de suprimento conectada. Um pangolim capturado no sudoeste de Mianmar pode virar carne em um restaurante local ou escamas moídas num mercado regional, mas também pode ser enviado por contrabandistas para China, Vietnã ou além.

“Um dos achados mais perturbadores foi constatar que os traficantes de diferentes países não atuam isoladamente. Há conexão entre eles, revelando uma rede suprarregional”, concluiu Gaubert.

O que muda agora na luta contra a extinção?

Com esses pontos quentes mapeados geneticamente, órgãos ambientais ganham pela primeira vez um alvo claro. Podem intensificar patrulhas no sudoeste de Mianmar, fortalecer fiscalização nos portos de Camarões, treinar agentes aduaneiros sobre as características genéticas das populações locais para detectar fraude.

O trabalho também oferece um modelo. A mesma abordagem de DNA de baixa qualidade pode ser aplicada a outros animais seriamente ameaçados pelo tráfico: elefantes, rinocerontes, tartarugas marinhas. Uma forma de transformar amostras antigas e confiscadas em inteligência de conservação.

Os pangolins continuam enroscando-se em bolas quando sentem perigo. É uma estratégia que funcionou por milhões de anos contra predadores selvagens. Contra humanos organizados, conectados e dispostos a cruzar continentes, essa defesa primal não basta. Agora, pelo menos, temos um mapa de onde procurá-los.

Matéria original: https://nautil.us/mapping-the-illegal-wildlife-trade-using-pangolin-dna-1280563/

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