Cientistas conseguiram fazer olhos de camundongos realizarem parte do processo de fotossíntese usando colírios contendo maquinário vegetal extraído de folhas de espinafre. Resultado publicado em maio de 2026 na revista Cell mostra que o colírio não apenas funcionou, mas equiparou-se a medicamentos comerciais já disponíveis para tratar olho seco.
Como os cientistas transformaram o olho em uma pequena fábrica solar?
A equipe liderada por David Tai Leong, engenheiro químico da Universidade Nacional de Singapura, extraiu componentes específicos das cloropastas do espinafre chamados tilacóides grana. Essas estruturas são as responsáveis pelas etapas iniciais da fotossíntese dependentes de luz, onde a clorofila captura energia solar.
Os pesquisadores encapsularam esses tilacóides em pacotes minúsculos e criaram um sistema batizado de LEAF (Light-reaction Enriched thylakoid NADPH-foundry). Quando incorporado em colírios, o LEAF funcionou como uma pequena usina geradora de antioxidantes dentro do olho inflamado.
O que torna esse tratamento surpreendentemente eficaz?
Durante o processo de fotossíntese, as cloropastas produzem uma molécula chamada NADPH que funciona como antioxidante. Nos camundongos com olho seco, essa molécula reduziu significativamente a inflamação e os danos à córnea. Depois de apenas cinco dias usando o colírio experimental, os animais tratados apresentavam produção de lágrima comparável aos que recebiam medicamentos comerciais padrão.
A concentração de clorofila usada é tão baixa que os colírios permanecem completamente transparentes. Leong brincou sobre isso: “Não teremos olhos verdes como o Incrível Hulk porque otimizamos muito a máquina fotossintética e não precisamos de quantidades enormes do sistema LEAF”.
Por que os olhos são o local perfeito para isso?
Xianfeng Lin, oftalmologista da Universidade de Zhejiang na China, explicou que o olho é naturalmente adequado para essa estratégia porque a luz já é parte intrínseca de seu funcionamento fisiológico normal. Ele e seus colegas haviam testado um sistema fotossintético similar em 2022 para combater inflamação artrítica em joelhos de camundongos.
A abordagem transforma o papel da luz no olho de uma função meramente sensorial para algo com potencial de suporte metabólico local e reparo tissular. Um paciente humano precisaria apenas de luz ambiente para que o tratamento funcionasse, sem necessidade de equipamentos especiais ou procedimentos invasivos.
Ainda faltam passos até chegar ao consultório oftalmológico
Os colírios estão longe de estarem prontos para uso humano. Pesquisadores ainda precisam conduzir testes extensivos de segurança e eficácia a longo prazo. A equipe trabalha para configurar um ensaio clínico inicial focado especificamente em segurança.
Essa pesquisa representa um exemplo fascinante de como a engenharia biológica inspira-se em relacionamentos simbióticos encontrados na natureza. Corey Allard, biólogo celular de Harvard Medical School, chamou o trabalho de “aplicação muito legal” dessa filosofia.
Se aprovados para uso humano, os colírios representariam uma terapia alinhada com nosso funcionamento biológico natural. O paciente estaria recebendo um tratamento que usa os processos normais de seu próprio corpo, ativado simplesmente pela luz que encontra todos os dias.
Foto: Ajay kumar no Pexels
Matéria original: https://www.livescience.com/health/scientists-got-mouse-eyes-to-perform-photosynthesis-and-no-they-didnt-turn-green






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