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Clorpirifós: O pesticida que causa danos cerebrais é usado no Brasil

Estudo revela que pesticida comum causa alterações cerebrais em crianças expostas no útero, afetando motricidade e desenvolvimento.

Ilustração mostrando efeitos do pesticida clorpirifós no cérebro de crianças durante desenvolvimento fetal
Ilustração mostrando efeitos do pesticida clorpirifós no cérebro de crianças durante desenvolvimento fetal

Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Neurology acaba de confirmar o que pesquisadores alertam há décadas: crianças expostas ao clorpirifós ainda no útero apresentam alterações na estrutura cerebral e dificuldades na coordenação motora. A pesquisa, conduzida por universidades americanas, é a primeira a mostrar que esse químico age em nível molecular, celular e metabólico no cérebro em desenvolvimento. É uma descoberta grave. E, no Brasil, ela deveria causar um alarme muito maior do que causa.

Isso porque, enquanto os Estados Unidos baniram o clorpirifós para uso agrícola em 2021, a União Europeia fez o mesmo em 2020 e até a Argentina o proibiu, o Brasil segue com o produto entre os cinco agrotóxicos mais utilizados no país, com mais de 10 mil toneladas vendidas só em 2019, segundo o Ibama. Aqui, o produto continua liberado, comercializado e aplicado nas lavouras que abastecem a mesa de milhões de famílias brasileiras (Jornal do Brasil).

O que o estudo mostrou?

A pesquisa acompanhou 270 crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos cujas mães tiveram clorpirifós detectado no sangue do cordão umbilical. O resultado foi claro: quanto maior a exposição fetal ao inseticida, maiores as alterações cerebrais, e pior o desempenho das crianças em testes de velocidade e coordenação. O que surpreendeu os pesquisadores foi a amplitude dos danos: os distúrbios não se concentravam em uma única região do cérebro, mas se espalhavam amplamente por ele.

O clorpirifós é um inseticida organofosforado. Esse grupo químico não é exatamente uma novidade nos alertas da ciência. A toxicologista e pesquisadora da Fiocruz Dra. Karen Friedrich explica que os efeitos tóxicos do clorpirifós vêm sendo estudados há décadas. “Os organofosforados têm um efeito bastante conhecido sobre o sistema nervoso, levando tanto a efeitos agudos, sentidos logo após a utilização e que causam consequências aos trabalhadores rurais, quanto consequências que aparecem a longo prazo”, diz ela. “Também já temos estudos sobre os danos do clorpirifós sobre o sistema hormonal, e de problemas no desenvolvimento de crianças que são expostas a essa substância quando ainda estão no útero ou no começo da vida.” Repórter Brasil

Não é novidade para ninguém da área. A questão é: por que o Brasil continua ignorando isso?

Um produto proibido em vários países

A Anvisa encontrou resíduos de clorpirifós em 10% das amostras de tomate analisadas pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, e o uso desse inseticida não é sequer permitido para culturas de tomate. Embora o clorpirifós tenha sido o 13º agrotóxico mais identificado no geral, ele foi o segundo que mais apareceu em situação irregular. A agência identificou resíduos do produto em 198 amostras de alimentos para os quais seu uso nunca foi autorizado, entre eles goiabas, laranjas, pimentões e tomates. Agência Pública

Em outras palavras: o produto está sendo usado além do que a lei já permite, e ainda assim continua no mercado. No Brasil, existem pelo menos 26 marcas comerciais de agrotóxicos formulados a partir do clorpirifós, de empresas como Ouro Fino, FMC, Dow Agrosciences e Adama, entre outras. Repórter Brasil

O clorpirifós figura entre os campeões em vendas no país — junto com mancozebe, atrazina, acefato e clorotalonil — todos também proibidos na Europa. Enquanto isso, no Brasil o produto é permitido para uso agrícola desde 2004, quando a Anvisa apenas restringiu seu uso doméstico, seguindo o que os EUA já haviam feito. Levou mais vinte anos para os americanos darem o próximo passo. O Brasil ainda não deu. Boa NotaeCycle

Uma burocracia que protege o veneno, não as pessoas

O mecanismo que poderia banir o clorpirifós no Brasil é a reavaliação do seu registro pela Anvisa. Até o momento, a agência não iniciou esse processo. E mesmo quando iniciado, ele pode perdurar por mais de uma década, a reavaliação do glifosato, por exemplo, começou em 2008 e só foi concluída em 2020. Agência Pública

Isso significa que, na prática, o clorpirifós provavelmente vai continuar circulando livremente no Brasil por muitos anos. E as crianças que nascem hoje em comunidades rurais continuam expostas.

Não é exagero falar em injustiça. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta, com 720 mil toneladas de pesticidas para uso agrícola segundo os dados mais recentes da FAO. Cerca de 50% dos agrotóxicos autorizados no Brasil nos últimos anos não são admitidos nos países de origem dos fabricantes. O país serve de destino para produtos que outros mercados recusam — e quem paga o preço são os mais vulneráveis: trabalhadores rurais sem equipamentos adequados, mães grávidas nas bordas dos canaviais, crianças cujo cérebro está sendo moldado enquanto dormem no ventre. TRT6TST

O que está em jogo

O estudo americano foi feito com crianças afro-americanas e latinas — populações historicamente marginalizadas e com maior exposição a agrotóxicos por viverem próximas a zonas agrícolas. No Brasil, esse recorte racial e de classe é igualmente brutal. São as famílias mais pobres, do interior, que moram ao lado das lavouras pulverizadas, que bebem da água que drena por entre os campos tratados, que comem os alimentos mais baratos e com mais resíduos.

O achado principal da pesquisa é simples e perturbador: quanto mais o feto foi exposto, maior o dano cerebral. Não há nível seguro. Não há “quantidade aceitável” quando o cérebro ainda está se formando.

No Brasil, a pergunta que fica não é científica. É política. Até quando vamos aceitar que o lucro do agronegócio valha mais do que o cérebro das nossas crianças?

Foto: Liton Miah no Pexels

Matéria original: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/05/260520233218.htm

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