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Mudanças climáticas ampliam territórios de vetor do hantavírus

Modelos climáticos mostram que roedores carregadores de hantavírus vão se expandir para regiões com milhões de pessoas. Argentina registra pico de casos.

Rato-dos-arrozais em seu habitat natural entre vegetação úmida
Rato-dos-arrozais (Oligoryzomys flavescens)em seu habitat natural entre vegetação úmida

Modelos climáticos sugerem que as regiões onde vivem roedores portadores de hantavírus vão se expandir significativamente nas próximas décadas. O risco é simples: populações inteiras enfrentarão pela primeira vez um vírus que nunca encontraram antes.

O surto atual revela o tamanho do problema

A Argentina registrou mais de 100 casos de hantavírus entre junho de 2025 e maio de 2026, praticamente o dobro do período anterior. O surto incluiu infecções confirmadas em passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius, trazendo a doença para a atenção global.

O culpado é o vírus Andes, carregado principalmente pelo rato-dos-arrozais-de-cauda-longa (Oligoryzomys flavescens), uma espécie que vive nas florestas úmidas e arbustos das regiões montanhosas do sul do Chile e da Argentina. Esse vírus é particularmente perigoso: mata até 50% dos pacientes infectados e é o único hantavírus capaz de se transmitir entre humanos.

Por que o clima está expandindo o alcance do vírus?

Juan Diego Pinotti, pesquisador da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina, mapeou 11 variantes diferentes de hantavírus circulando em 13 espécies de roedores nativos. Cada variante evoluiu durante séculos dentro de uma única espécie hospedeira, mantendo um equilíbrio onde o roedor carrega o vírus sem adoecer.

O problema emerge agora. Os modelos climáticos mostram que o aquecimento global vai deslocar gradualmente a distribuição desses roedores reservatórios. O rato-dos-arrozais-de-cauda-longa, que tradicionalmente habita as encostas da Cordilheira dos Andes, deve expandir seu território em direção ao litoral atlântico argentino.

Isso significa uma coisa: vilas e cidades onde vivem milhões de argentinos estarão em contato com um vírus que seus habitantes nunca enfrentaram. A transmissão ocorre por inalação de poeira contaminada com urina, fezes ou saliva de roedores infectados.

Uma ameaça silenciosa e subestimada

O hantavírus causa a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, conhecida como HCPS. Os primeiros sintomas parecem simples: febre, dor de cabeça e problemas digestivos. Mas logo após, a doença ataca os pulmões, causando insuficiência respiratória que mata até metade das vítimas.

Pesquisadores alertam que é necessário intensificar a vigilância e testes em todas as províncias argentinas. O vírus pode estar chegando a áreas completamente novas sem que ninguém perceba. Em regiões costeiras com alta densidade populacional, um pequeno surto pode virar rapidamente um problema de saúde pública.

Qual é o cenário real daqui a 20 anos?

A expansão dos roedores não é uma possibilidade remota. Modelos climáticos com alto nível de confiança preveem que as zonas adequadas para o rato-das-arrozais-de-cauda-longa vão crescer significativamente. O pior cenário: cidades como Buenos Aires, que nunca registraram casos de hantavírus, podem começar a ver infecções locais.

Ao mesmo tempo, o aquecimento global pode criar condições em novas regiões do Brasil, Uruguai e outras áreas da América do Sul onde esses roedores nunca foram encontrados. Cada expansão territorial abre portas para que uma população sem imunidade enfrente um patógeno letal.

A pergunta que fica é incômoda: quantas populações humanas estão construindo cidades e fazendas exatamente nos territórios que esses roedores estão conquistando neste momento?

Foto: Alejandro Orozco no Pexels

Matéria original: https://www.livescience.com/health/viruses-infections-disease/hantavirus-outbreaks-could-become-more-likely-as-virus-carrying-rodents-expand-their-range-model-finds

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