Há 2.700 anos, os daunios moldavam cerâmica com criatividade perturbadora. Uma delas, a kyathos dauniana, era uma taça de uma alça com um rosto humano esculpido na lateral, olhos escancarados e braços erguidos (foto do post). O objeto intriga arqueólogos até hoje: servia para beber vinho, rituais com ópio ou simplesmente expressava a visão de mundo dessa civilização apagada.
Quem eram os daunios e o que deixaram para trás?
Os daunios ocuparam o “calcanhar” da península itálica séculos antes de Roma conquistar a região. Não deixaram registros escritos. Sua existência só é mencionada em textos antigos a partir do século VII a.C., e foram absorvidos pelos romanos por volta de 275 a.C., após a Guerra Pírica.
Esses povos viviam principalmente da agricultura e criação de animais, comercializando com gregos e ilírios do outro lado do Adriático, na atual Croácia. Muito de sua cultura permanece desconhecido, revelado apenas através de objetos de cerâmica que os arqueólogos encontram espalhados pelo sul da Itália.
A descoberta em Herdonia mudou o que sabemos sobre cerâmica pré-romana
Escavações de quatro décadas na cidade dauniana de Herdonia, na província de Foggia, revelaram um centro produtor de vasos que a revista Popular Archaeology classificou como “extraordinários” e entre os melhores produtos da cerâmica itálica anterior aos romanos.
A kyathos é o exemplo mais peculiar dessa produção. A base é um prato pequeno com borda, cerca de 12,7 centímetros de diâmetro. Ao lado, um rosto humano esculpido serve como alça, com braços levantados e olhos arregalados. O rosto é decorado com padrões geométricos, e uma figura estilizada que lembra um pássaro ocupa o centro da base.
O exemplar descoberto em Herdonia integra o acervo do Museu Cívico de Foggia. Outros exemplares estão no Museu Arqueológico de Herdonia, no Metropolitan Museum of Art em Nova York e no Museu Britânico em Londres.
Para que serviam essas taças estranhas?
A função exata da kyathos dauniana é debatida. A hipótese mais comum é que funcionasse como uma concha para vinho, semelhante aos kyathos gregos usados em festas para despejar e misturar vinho com água.
Mas há um problema: os exemplares daunios são anteriores ao uso comum da kyathos grega e parecem mais taças rasas do que copos. Isso levanta dúvidas sobre se cumpriam a mesma função.
A segunda hipótese é mais intrigante. Um estudo publicado em 2023 analisou vários vasos daunios e detectou alcaloides de ópio na maioria deles. A descoberta sugere que alguns recipientes serviam para preparar misturas de ópio, possivelmente para induzir trances religiosos ou aliviar dor. Ainda não está claro, porém, se o rosto bizarro esculpido na kyathos tem qualquer conexão com práticas enteógenas.
O mistério permanece
Os daunios desapareceram da história, deixando apenas seus potes estranhos e expressivos. Sem textos para interpretar, arqueólogos só conseguem especular sobre o significado daquele rosto com olhos esbugalhados. Era apenas um capricho estético, um protetor espiritual ou um indicador visual de que o vaso continha substâncias sagradas?
A kyathos dauniana se recusa a revelar seu segredo.
Foto: Olga Solodilova no Pexels
Matéria original: https://www.livescience.com/archaeology/daunian-kyathos-a-2-700-year-old-ceramic-cup-from-italy-decorated-with-an-exuberant-looking-bug-eyed-fellow






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