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Andinos evoluíram para digerir batata melhor que qualquer população

Andinos desenvolveram superioridade genética para digerir batata. Pesquisadores descobriram que Quechua têm 10 cópias de gene de amido contra 7 global.

Pessoa dos Andes e sua capacidade de digestão aperfeiçoada pela evolução.
Pessoa dos Andes e sua capacidade de digestão aperfeiçoada pela evolução.

Habitantes das terras altas dos Andes desenvolveram uma adaptação genética que os torna excepcionalmente eficientes na digestão de batata. Pesquisadores descobriram que povos indígenas Quechua do Peru carregam em média 10 cópias de um gene crucial para essa digestão do amido, enquanto o resto da humanidade possui apenas 7.

A descoberta emerge de uma análise de genomas de 3.723 indivíduos de 85 populações distintas. O gene em questão, chamado AMY1, produz a enzima salivar amilase, que inicia o processo de quebra do amido na boca. Essa vantagem, segundo os pesquisadores, conferiu aos Quechua um ganho de 1,24% na sobrevivência ou sucesso reprodutivo a cada geração.

Como a batata moldou a biologia nos Andes?

A batata foi domesticada há cerca de 10 mil a 6 mil anos nos Andes. O timing coincide precisamente com o aumento das cópias do gene AMY1 naquela população, uma sincronia que fortalece a hipótese de que a adaptação não foi mera coincidência.

Abigail Bigham, antropóloga da Universidade da Califórnia em Los Angeles, ressalta que os Andes já eram conhecidos por revelar adaptações humanas extraordinárias, como a capacidade de sobreviver em altitudes extremas com baixo oxigênio. Agora, a região também ilustra como a dieta moldou a evolução genética.

“A evolução é como uma escultura, não é como a construção de um prédio”, explica Omer Gokcumen, antropólogo evolutivo da Universidade em Buffalo. “Não foi que os Quechua ganharam cópias extras do gene AMY1 quando começaram a comer batata. Ao contrário, aqueles com menos cópias foram eliminados da população ao longo do tempo, talvez porque tiveram menos filhos, enquanto os com números maiores permaneceram.”

O contraste revelador com outras populações

Descendentes dos Maias, que não têm longa história de cultivo de batata, não apresentam a mesma adaptação. Essa diferença direta é uma das evidências mais fortes de que a mudança não ocorreu por acaso, mas foi impulsionada pela pressão alimentar específica.

Luane Landau, geneticista evolutiva da Universidade em Buffalo, destaca que o resultado demonstra como adaptações genéticas a mudanças dietéticas são possíveis em escala de tempo relativamente curta, cerca de 10 mil anos.

Implicações para o debate sobre dieta ancestral

A pesquisa adiciona uma camada importante ao debate sobre a chamada dieta paleolítica, que promove o consumo de alimentos que nossos ancestrais comiam. Se nossos genes continuam evoluindo em resposta ao que comemos, então comer como nossos antepassados distantes pode não ser tão relevante biologicamente quanto se imaginava.

Kendra Scheer, geneticista evolutiva também da Universidade em Buffalo, levanta uma questão provocante: “Durante a maior parte da história humana, as pessoas comiam a mesma coisa que seus ancestrais por milhares de anos. Você literalmente precisava migrar pelo mundo para mudar sua dieta. Então, o que significa agora que comemos comida de todo o planeta? E agora que demonstramos as forças de seleção natural atuando na digestão de batata, o que significa que o mundo todo come batata frita?”

O estudo foi publicado na revista Nature Communications. A pesquisa abre perspectivas fascinantes sobre como a tecnologia e a globalização podem estar criando novas pressões evolutivas sobre nossa espécie, em tempo real.

Foto: Gilmer Diaz Estela no Pexels

Matéria original: https://www.sciencealert.com/humans-in-the-andes-have-evolved-a-strange-digestive-superpower

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