Introdução: Evolução Genética nos Altos Andes
Por milhares de anos, humanos que vivem nas regiões elevadas dos Andes Argentinos consumiram água que deixaria a maioria das pessoas muito doentes. Isso ocorre porque o arsênio, um metalóide tóxico, ocorre naturalmente nas rochas vulcânicas e contamina o lençol freático local. Portanto, quem consome essa água estaria sujeito a graves riscos à saúde.
Entretanto, para um grupo específico no norte da Argentina, a seleção natural pode ter promovido uma vantagem genética incomum. De acordo com uma análise de DNA feita em populações do oeste da América do Sul, uma população dos Andes Argentinos possui uma variante genética que provavelmente ajuda a metabolizar o arsênio de forma mais segura.
Adaptação Genômica ao Arsênio
“A adaptação provoca mudanças genômicas; todavia, evidências específicas de adaptações em humanos ainda são limitadas”, escreveram a bióloga evolutiva Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, da Universidade de Uppsala, em um artigo de 2015. Além disso, elas destacaram que “nossos dados mostram que a adaptação para tolerar o estressor ambiental arsênio provavelmente impulsionou o aumento da frequência de variantes protetoras do gene AS3MT, fornecendo a primeira evidência de adaptação humana a um produto químico tóxico”.
Contexto Geográfico e Histórico
A cidade argentina de San Antonio de los Cobres está situada a aproximadamente 3.775 metros de altitude, no planalto da Puna de Atacama. O arsênio nesse local alcançava níveis cerca de 20 vezes maiores que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 10 microgramas por litro.
Antes da instalação de um sistema de filtragem em 2012, a água potável da região apresentava aproximadamente 200 microgramas de arsênio por litro. Por outro lado, a área tem sido habitada por pelo menos 7.000 anos, talvez até 11.000 anos, o que demonstra uma surpreendente capacidade de adaptação humana.
Mecanismo de Metabolização do Arsênio
Quando o arsênio entra no organismo, várias enzimas transformam-no em diversos compostos químicos. Por exemplo, o monometilado de arsênio (MMA) é uma forma intermediária particularmente tóxica, enquanto o dimetilado de arsênio (DMA) é uma forma menos tóxica, facilmente excretada pela urina.
Os habitantes de San Antonio de los Cobres produziam menos MMA e mais DMA, o que sugeria que seus corpos eram especialmente eficientes em processar o arsênio. Por isso, a equipe liderada por Schlebusch coletou DNA de 124 mulheres da região e analisou milhões de marcadores genéticos.
Resultados e Comparações
Para verificar se essa variante genética era exclusiva da população argentina, os pesquisadores compararam os dados com genomas públicos do Peru e da Colômbia, obtidos pelo Projeto 1000 Genomas. Os resultados indicaram que as variantes envolvidas na proteção contra arsênio tinham frequências significativamente maiores na população dos Andes Argentinos.
Considerações Finais
Dessa forma, a pesquisa evidencia a capacidade humana de adaptar-se geneticamente a toxinas ambientais ao longo de milhares de anos. Além disso, esses achados abrem caminhos para estudos sobre como o corpo humano metaboliza substâncias tóxicas, o que pode ter implicações importantes para outras áreas da saúde, como a pesquisa de tratamentos para ansiedade.
Matéria original: https://www.sciencealert.com/humans-in-the-andes-appear-to-have-evolved-a-strange-genetic-ability






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