Câmeras escondidas em acampamentos remotos do Ártico canadense flagraram um comportamento que surpreendeu até os pesquisadores: ursos polares estão se aproximando cada vez mais de estruturas humanas. O motivo, ao contrário do que se imaginava, não se resume à fome. Um estudo que monitorou 580 visitas ao longo de uma década mostrou que o fator determinante é outro: o tempo que o mar fica sem gelo.
O que os pesquisadores descobriram de fato?
Entre 2011 e 2021, armadilhas fotográficas foram instaladas em três acampamentos no Parque Nacional Wapusk, em Manitoba, e no Centro de Estudos do Norte de Churchill, na costa oeste da Baía de Hudson. O objetivo inicial era atender a um pedido da Parks Canada: as novas bases de campo em Broad River e Owl River estavam recebendo mais visitas de ursos do que o esperado. O projeto, porém, revelou um padrão que ninguém havia quantificado até agora.
Das 580 aparições registradas, a maioria ocorreu entre julho e novembro, período em que a presença dos ursos já é comum na região. Em 80% dos casos, as fotos eram nítidas o suficiente para classificar a condição corporal dos animais usando um índice de gordura estabelecido pela ciência. A expectativa inicial era de que os ursos mais magros, sob estresse nutricional, fossem os visitantes mais frequentes. Os dados contaram uma história diferente.
Por que o gelo é o protagonista dessa história?
A temporada sem gelo pode se alongar quando o mar descongela mais cedo na primavera, congela mais tarde no outono ou ambos. Durante os dez anos do estudo, não houve uma tendência linear de aumento desse período, mas a variação de ano para ano foi enorme. E a cada ano em que a Baía de Hudson permanecia mais tempo descongelada, as câmeras registravam mais visitas.
O achado derruba uma ideia intuitiva. A atividade humana nos locais monitorados não afetou o número de aparições. O que realmente pesou foi a duração da estação sem gelo. Em anos de degelo mais prolongado, os ursos apareciam com mais frequência, independentemente de estarem visivelmente magros ou com boa reserva de gordura. A condição corporal sozinha não previa quem iria se aproximar dos acampamentos.
O que isso muda na prática para ursos e pessoas?
A pesquisa, publicada por cientistas que participaram diretamente do monitoramento, é um alerta. Ela mostra que o avanço humano no Ártico não é o único fator a considerar. O encolhimento do habitat natural dos ursos polares, causado pelo aquecimento global, está empurrando animais de todos os tamanhos para a costa. E essa é uma má notícia para ambas as espécies: os encontros podem ser perigosos para os ursos e para as comunidades locais.
Uma condição corporal saudável é essencial para que os ursos sobrevivam ao jejum em terra firme. Mas o estudo deixa claro que mesmo os ursos com boas reservas estão sendo deslocados para áreas de atividade humana quando o gelo demora a se formar. A curiosidade natural da espécie, descrita como “intensa” pelos pesquisadores, faz o resto. A combinação de necessidade e temperamento transforma cada visita em um risco potencial.
Os próprios autores reconhecem limitações: o estudo abrange apenas a região da Baía de Hudson oeste. Outras populações de ursos polares podem responder de forma diferente, dependendo da dinâmica do gelo e da presença humana. Mas o recorte de uma década oferece uma base sólida que não existia antes. Ainda não se sabe se o padrão se repete em outras partes do Ártico, mas os números canadenses já são suficientes para redirecionar as políticas de convivência entre humanos e grandes predadores.
Enquanto o gelo marinho continua a diminuir no planeta, a pergunta que fica é: quantos encontros ainda serão registrados pelas câmeras automáticas antes que alguém se machuque de verdade? Os ursos polares não estão indo atrás de pessoas por falta de opção. Eles estão sendo empurrados para a costa, e a linha entre a curiosidade e o conflito nunca foi tão tênue.
Foto: Francesco Ungaro no Pexels
Matéria original: https://www.livescience.com/animals/bears/more-polar-bears-are-approaching-human-sites-as-the-climate-warms-and-its-not-just-the-skinny-ones






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