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Tardígrado: o que é o urso d’água e por que sobrevive a tudo?

Imagem de um tardígrado andando sobre vegetação
Imagem de um tardígrado andando sobre vegetação

O tardígrado tem oito patas, mede menos de 1 mm e parece um urso em miniatura ao microscópio, daí o apelido urso dágua”. Mas o que tornou esse animal famoso nos laboratórios do mundo inteiro é outra coisa: é o único animal que sobreviveu, sem nenhuma proteção, ao espaço sideral.

Um animal de oito patas com meio bilhão de anos

Tardígrados pertencem ao filo Tardigrada, com cerca de 1.400 espécies descritas. Vivem em musgo, líquen, solo úmido, água doce, sedimentos marinhos e nas calotas polares. Estão presentes em todos os continentes.

O zoólogo alemão Johann August Ephraim Goeze os descreveu pela primeira vez em 1773, chamando-os de “porquinho dágua (Kleiner Wasserbär). Em 1776, o naturalista italiano Lazzaro Spallanzani nomeou o grupo Tardigrada, do latim tardus (lento) e gradus (passo), em referência ao modo peculiar de locomoção. Naquele mesmo trabalho, Spallanzani relatou algo que pareceu impossível: o animal secava completamente e voltava à vida ao ser reumedecido.

Duzentos e cinquenta anos depois, pesquisadores publicaram uma revisão completa dessa história na Organisms Diversity & Evolution (Springer, 2025). O que Spallanzani chamou de curiosidade tornou-se uma das linhas de pesquisa mais ativas da biologia molecular.

A criptobiose: ficar suspenso sem estar morto

Quando o ambiente ao redor começa a secar, o tardígrado retrai as patas, encurva o corpo e perde até 97% de sua água. O metabolismo cai a menos de 0,01% do ritmo normal. O animal entra num estado chamado criptobiose, ou mais especificamente anidobiose (do grego: vida sem água). Nesse estado, não está morto. Está suspenso.

Ao entrar em contato com água novamente, volta a se mover em horas. Em experimentos de laboratório, tardígrados desidratados foram mantidos por décadas e reativados com sucesso.

Os limites documentados em laboratório:

  • Temperatura: de -272°C (próximo ao zero absoluto) até +150°C
  • Pressão: suportaram mais de 600 MPa, equivalente a seis vezes a pressão da Fossa das Marianas
  • Radiação: sobreviveram a até 570.000 rad. Humanos morrem com cerca de 1.000 rad
  • Vácuo espacial: suportaram exposição direta por dez dias, sem qualquer proteção

A proteína Dsup: um escudo ao redor do DNA

Em 2016, pesquisadores da Universidade de Tóquio identificaram a razão molecular de parte dessa resistência. O Dr. Takuma Hashimoto e colegas sequenciaram o genoma da espécie Ramazzottius varieornatus e encontraram uma proteína exclusiva dos tardígrados: a Dsup (sigla para Damage Suppressor, ou supressora de danos). O estudo foi publicado na Nature Communications.

Quando expressaram a Dsup em células humanas cultivadas em laboratório, as células passaram a tolerar danos por raios-X com 40% menos fragmentação de DNA.

Em 2019, o laboratório do Dr. James Kadonaga, na Universidade da Califórnia em San Diego, publicou na eLife o mecanismo exato: a Dsup se conecta ao nucleossomo, o complexo de proteínas que envolve o DNA, e forma uma nuvem ao redor da cromatina. Essa nuvem neutraliza os radicais hidroxila antes que rompam as fitas de DNA.

Os pesquisadores acreditam que a proteína não evoluiu para resistir à radiação. Ela evoluiu para proteger o DNA durante a desidratação. A resistência à radiação é um efeito colateral de 500 milhões de anos de adaptação ao ambiente seco.

As TDPs: células preservadas como em âmbar

Em 2017, Boothby et al. descreveram, na Molecular Cell, outro mecanismo de proteção. Algumas espécies de tardígrados produzem proteínas chamadas TDPs (proteínas desordenadas específicas de tardígrados). Quando o animal se desidrata, as TDPs formam um sólido amorfo, uma espécie de vidro, ao redor das células, encapsulando proteínas e membranas e impedindo sua degradação. É como se cada célula fosse preservada dentro de um âmbar molecular.

Os tardígrados foram ao espaço e voltaram

Em setembro de 2007, a Agência Espacial Europeia (ESA) colocou tardígrados a bordo da missão FOTON-M3. Durante dez dias, dois grupos ficaram expostos ao ambiente espacial: um protegido da radiação UV solar, outro completamente exposto. O grupo protegido sobreviveu e reproduziu normalmente após o retorno. Parte do grupo exposto à radiação UV também sobreviveu. Foi o primeiro registro documentado de um animal multicelular sobrevivendo em espaço aberto, sem proteção de cápsula ou traje.

Em 2019, a sonda israelense Beresheet colidiu com a Lua carregando, entre outros materiais, milhares de tardígrados desidratados depositados pela Arch Mission Foundation. Os animais provavelmente permanecem na superfície lunar em estado de criptobiose. A Lua não tem água nem atmosfera, então não há condições para sair desse estado. Estão tecnicamente vivos, suspensos, sem perspectiva de reviver.

Onde encontrar um tardígrado agora?

Provavelmente perto de você. Uma pequena amostra de musgo úmido, diluída em água e observada num microscópio com aumento de 40x a 100x, costuma revelar tardígrados se movendo. São comuns em telhados cobertos de musgo, jardins, beiras de rios e florestas.

A maioria das pessoas nunca viu um porque medem entre 0,1 mm e 1,5 mm e habitam um mundo invisível a olho nu. Mas estão por toda parte: na Antártida, no Himalaia, no fundo do oceano e, quase certo, no jardim da sua casa.

O que os tardígrados estão ensinando à medicina?

A proteína Dsup já foi inserida com sucesso em células humanas e em plantas em laboratório. Estudos de 2024 e 2025, publicados em Scientific Reports e Nature Communications, continuam investigando sua estrutura e como ela interage com a cromatina em diferentes contextos biológicos.

Duas aplicações concentram o interesse dos pesquisadores. A primeira: pacientes que fazem radioterapia sofrem danos colaterais em células saudáveis próximas ao tumor. Proteger essas células com mecanismos inspirados na Dsup poderia reduzir efeitos adversos. A segunda: missões para Marte expõem astronautas a radiação cósmica por meses, sem a proteção da magnetosfera terrestre. Estratégias de proteção celular baseadas em tardígrados são uma das linhas em investigação.

Nenhuma dessas aplicações saiu do laboratório. A distância entre funciona em célula cultivada e funciona em ser humano é longa. Mas os tardígrados continuam gerando perguntas que a biologia molecular ainda não sabe responder por completo.

Perguntas frequentes sobre tardígrados

O tardígrado é um inseto?

Não. Tardígrados formam um filo próprio (Tardigrada), separado dos insetos, aranhas e crustáceos, embora compartilhem ancestrais comuns dentro do grupo Ecdysozoa.

Um tardígrado pode morder?

Têm uma boca armada com estiletes para perfurar células vegetais ou presas menores. Não representam risco para humanos.

Quanto tempo vive um tardígrado?

Em condições normais, a maioria das espécies vive de alguns meses a dois anos. Em criptobiose, podem permanecer viáveis por décadas.

Dá para ver um tardígrado a olho nu?

Os maiores, próximos a 1,5 mm, são visíveis com muito esforço sob boa iluminação. A maioria exige microscópio com pelo menos 40x de aumento.

Tardígrados sobreviveriam ao fim do Sol?

Estudos sugerem que tardígrados sobreviveriam a vários cenários de extinção em massa, mas dependem de água líquida para sair da criptobiose. Sem água, ficam suspensos indefinidamente, sem possibilidade de reviver.


Fontes e referências científicas

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