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Plantas têm sistema nervoso? O que a ciência descobriu

Quando uma folha é ferida, a planta avisa as outras com glutamato, o mesmo mensageiro que neurônios usam. Mas isso é um sistema nervoso de verdade? A ciência explica.

sistema nervoso

Quando uma folha de uma planta de mostarda é cortada, um sinal percorre toda a planta em menos de dois minutos. A folha do outro lado começa a produzir substâncias de defesa antes mesmo de ser atacada. O mecanismo usa o mesmo mensageiro químico que os neurônios de animais. Por isso cientistas comparam esse sistema de comunicação a um tipo de sistema nervoso — mas as plantas não têm neurônios, e a semelhança tem limites claros.

O que o estudo mostrou?

Em 2018, uma equipe liderada pelo biólogo Masatsugu Toyota, da Universidade de Saitama no Japão, publicou na revista Science um experimento com Arabidopsis thaliana, uma plantinha usada como organismo modelo em biologia molecular.

A equipe inseriu na planta um sensor que brilha em verde quando detecta aumento de cálcio. Ao cortar uma folha, viu o brilho se espalhar a partir da ferida, percorrer os tecidos vasculares e chegar às outras folhas em questão de minutos.

O gatilho foi o glutamato — o mesmo aminoácido que neurônios de animais usam para transmitir sinais elétricos. O glutamato liberado pela folha ferida ativou uma onda de íons de cálcio que se propagou pelo floema, o tecido que transporta nutrientes na planta. Ao chegar às folhas distantes, o sinal induziu a produção de ácido jasmônico, uma substância que aumenta a resistência a pragas.

Isso é um sistema nervoso de verdade?

Depende do que você chama de sistema nervoso.

Um sistema nervoso animal tem neurônios, sinapses e processamento central. As plantas não têm nada disso. O que elas têm é sinalização elétrica e química que cumpre uma função parecida: transmitir informação de um ponto a outro do organismo.

A velocidade é completamente diferente. Um impulso nervoso animal viaja a centenas de metros por segundo. O sinal de cálcio de uma planta leva minutos para percorrer alguns centímetros. E não há processamento central — a planta não decide nada. Cada célula responde quimicamente quando o sinal chega.

Os pesquisadores usam a analogia com o sistema nervoso porque o mecanismo molecular é similar, não porque as plantas pensam ou sentem dor.

O que as plantas detectam?

As plantas detectam luz, gravidade, toque, temperatura, umidade e dano físico. Ajustam crescimento, alocação de recursos e produção de compostos químicos com base nessas informações. Esse processo se chama comportamento adaptativo, não cognição.

O campo da sinalização vegetal estuda esses mecanismos há décadas. Parte dos pesquisadores usa o termo neurobiologia vegetal, que é contestado dentro da própria biologia. A maioria dos especialistas prefere sinalização química e elétrica em plantas para descrever o que foi observado sem implicar estruturas que as plantas não possuem.

As plantas também mostram plasticidade genética notável: estudos mostram que plantas que duplicaram o DNA sobreviveram a extinções em massa nove vezes na história evolutiva, o que sugere um conjunto sofisticado de mecanismos de adaptação que vai além da sinalização.

Por que a pesquisa importa?

Se for possível manipular o sistema de sinalização via glutamato e cálcio, pesquisadores poderiam desenvolver culturas que ativam defesas antes de uma praga se espalhar — reduzindo o uso de pesticidas. Estudos posteriores ao de 2018 encontraram mecanismos similares em tomate, tabaco e outras plantas vasculares, sugerindo que esse sistema é comum e não exclusivo da Arabidopsis.

Perguntas frequentes sobre o sistema nervoso das plantas

Plantas sentem dor?

Não, no sentido científico do termo. Dor é uma experiência subjetiva associada a um sistema nervoso central. Plantas detectam dano e respondem quimicamente, mas não há evidência de processamento subjetivo nem de consciência.

Plantas têm neurônios?

Não. As plantas têm floema e xilema para transporte de substâncias, mas não têm células análogas a neurônios. A sinalização ocorre por ondas de cálcio nos tecidos vasculares, sem células especializadas em transmissão de impulsos.

O glutamato das plantas é o mesmo dos animais?

Sim. O glutamato é um aminoácido presente em todos os seres vivos. Nos animais, funciona como neurotransmissor. Nas plantas, serve de gatilho para ondas de cálcio. A molécula é a mesma; as estruturas que respondem são completamente diferentes.

Esse sistema existe em outras plantas além da Arabidopsis?

Estudos posteriores ao de 2018 encontraram mecanismos similares em tomate, tabaco e outras angiospermas. A hipótese é que a sinalização por glutamato e cálcio seja comum em plantas vasculares, mas a pesquisa ainda está em andamento.

Fontes: Toyota et al., Science 2018 | Scientific American

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