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Cérebros de Neandertais desmentem mito que durou 170 anos

Estudo mostra que diferenças cerebrais entre neandertais e humanos são menores que entre populações humanas atuais. Inteligência neandertal foi subestimada.

inteligência neandertal

Um crânio descoberto em 1857 no Vale de Neander, na Alemanha, marcou o início de uma narrativa que persiste até hoje: a de que os neandertais eram cognitivamente inferiores aos humanos modernos. O anatomista Hermann Schaaffhausen, ao analisar o fóssil, declarou que o cérebro tinha um “estágio baixo de desenvolvimento”. Essa conclusão, baseada mais em preconceito do que em evidência, moldou séculos de interpretação científica.

Agora, porém, pesquisadores do Departamento de Antropologia Evolutiva da Universidade de Viena e colegas internacionais colocam essa suposição em xeque. Eles compararam varreduras cerebrais de populações humanas modernas nos EUA e na China e descobriram algo surpreendente: as diferenças no volume cerebral entre essas duas populações atuais são maiores do que as entre neandertais e humanos modernos.

O que os cérebros revelam sobre inteligência

O argumento dos pesquisadores é direto. Se aceitássemos que pequenas diferenças no tamanho e forma do cérebro neandertal indicavam menor capacidade cognitiva, teríamos de aceitar o mesmo para as diferenças observadas entre populações humanas vivas hoje. Mas existe um problema óbvio: ninguém sustenta que chineses e americanos têm capacidades mentais fundamentalmente diferentes baseadas em anatomia cerebral.

“Se rejeitarmos a ideia de que essas populações humanas modernas são cognitivamente diferentes de forma evolutivamente relevante, então qualquer argumento de que diferenças neandertais deveriam ser consideradas assim não se sustenta”, apontam os autores do estudo, publicado em 2024.

A pesquisa revisou a literatura científica existente e encontrou uma conclusão incômoda para a narrativa tradicional: a capacidade cognitiva está apenas fracamente associada à anatomia cerebral em humanos modernos, se é que existe associação.

Evidências de uma inteligência subestimada

Nas últimas décadas, achados arqueológicos acumularam-se para desafiar a reputação que os neandertais conquistaram. Esses homens e mulheres antigos não eram brutos ou primitivos. Eles mergulhavam no fundo do oceano para coletar conchas, fabricavam ferramentas para fazer fogo e preparavam medicamentos com propriedades antibacterianas.

Havia evidência também de que adaptavam suas próprias roupas, criavam arte abstrata e possivelmente possuíam capacidade de fala similar à dos humanos modernos. O que torna isso ainda mais notável: muitas dessas práticas ocorreram entre neandertais bem antes de os humanos modernos as desenvolverem.

Quando Schaaffhausen publicou suas opiniões sobre o crânio neandertal em meados de 1800, a comunidade científica ainda acreditava que a humanidade tinha apenas cerca de 6 mil anos. Darwin não havia publicado sua obra sobre evolução, e o entendimento sobre ancestralidade humana era fragmentado e enviesado.

De volta ao ponto de partida

O estigma inicial pegou e permaneceu por mais de 170 anos. Estudantes aprenderam que humanos sobreviveram porque tínhamos melhores cérebros. Documentários repetiram essa narrativa. Livros de história natural a incorporaram como fato estabelecido.

Mas o que a ciência agora sugere é mais humilhante para nossa pretensão de superioridade cognitiva: neandertais desapareceram provavelmente não porque eram menos inteligentes, mas por fatores ambientais, competição por recursos ou simplesmente azar evolutivo. Eles tinham a capacidade de pensar, inovar e criar. Tinham inteligência suficiente para sobreviver durante centenas de milhares de anos em ambientes brutais.

A pergunta que fica é incômoda: quantos outros preconceitos científicos herdamos de pesquisadores como Schaaffhausen, que confundiram diferença com deficiência?

Matéria original: https://www.sciencealert.com/brain-scans-reveal-a-surprise-about-neanderthal-intelligence

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