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Apneia do sono em crianças reduz substância cinzenta no cérebro

A apneia do sono em crianças pode produzir uma consequência muito deletéria ao cérebro infantil.
A apneia do sono em crianças pode produzir uma consequência muito deletéria ao cérebro infantil.

Um estudo publicado em 2017 na revista Scientific Reports identificou reduções de substância cinzenta em múltiplas regiões do cérebro de crianças com apneia obstrutiva do sono moderada ou grave. As áreas comprometidas incluem regiões ligadas à memória, ao processamento emocional e ao controle cognitivo. Nos casos avaliados, o distúrbio deixou marcas estruturais visíveis no cérebro ainda em desenvolvimento.

O que o estudo encontrou?

Pesquisadores da Universidade de Chicago recrutaram 16 crianças entre 7 e 11 anos com diagnóstico confirmado de apneia obstrutiva do sono moderada ou grave. As imagens cerebrais dessas crianças foram obtidas por ressonância magnética e comparadas com imagens de crianças da mesma faixa etária sem o distúrbio.

O resultado mostrou reduções significativas de substância cinzenta em várias regiões, incluindo o córtex frontal, o hipocampo, o giro parahipocampal e partes do cerebelo. Essas estruturas estão envolvidas no planejamento, na memória de curto e longo prazo, na regulação emocional e no controle de impulsos.

“As imagens de mudanças na matéria cinzenta são impressionantes”, disse a pesquisadora sênior do estudo, a médica Leila Kheirandish-Gozal, diretora de pesquisa clínica do sono pediátrico na Universidade de Chicago. “Há evidências claras de dano ou perda neuronal generalizada em comparação com a população em geral.”

A substância cinzenta contém os corpos celulares dos neurônios e é fundamental para o processamento de informações. Reduções nessa estrutura estão associadas, em estudos populacionais maiores, a dificuldades cognitivas, problemas de atenção e alterações no comportamento.

Como o estudo foi realizado?

O estudo é observacional e transversal: avaliou um grupo de crianças em um único momento no tempo, sem acompanhamento ao longo de meses ou anos após o diagnóstico. Os padrões de sono foram monitorados durante uma noite no laboratório de sono pediátrico da Universidade de Chicago.

As imagens de ressonância magnética permitiram medir o volume de substância cinzenta em diferentes regiões com precisão milimétrica. Os pesquisadores aplicaram métodos estatísticos para comparar esse volume entre os grupos com e sem apneia, controlando diferenças de tamanho cerebral entre as crianças.

O que é apneia do sono e como ela afeta crianças?

A apneia obstrutiva do sono ocorre quando as vias aéreas superiores ficam parcial ou totalmente bloqueadas durante o sono, interrompendo a respiração por segundos ou minutos antes que o organismo reage e retoma o ciclo. Em crianças, a causa mais comum é o aumento das amígdalas e das adenoides.

O distúrbio afeta entre 1% e 5% das crianças em idade escolar, segundo a Academia Americana de Medicina do Sono. Durante as pausas respiratórias, o nível de oxigênio no sangue cai e o sono é fragmentado. O cérebro em desenvolvimento, ao longo de noites repetidas, é exposto a episódios de privação de oxigênio que, segundo a hipótese central dos pesquisadores, podem comprometer a maturação de estruturas ainda em formação.

Quais sinais podem indicar apneia em crianças?

Os sinais mais frequentes são ronco intenso e regular, pausas na respiração observadas por adultos durante o sono, sono agitado com muitas mudanças de posição, respiração predominantemente pela boca, cansaço excessivo durante o dia e dificuldades de concentração ou comportamento parecido com TDAH.

Crianças com apneia muitas vezes não relatam acordar ou dormir mal no sentido subjetivo, o que torna o reconhecimento do problema mais difícil. O diagnóstico é feito por polissonografia, exame padrão para avaliação do sono disponível em centros especializados e hospitais universitários do SUS.

Quais são as limitações deste estudo?

A limitação mais importante é o tamanho da amostra: apenas 16 crianças com apneia. Com um número tão pequeno, os resultados precisam ser replicados em estudos maiores antes de orientar condutas clínicas. Diferenças individuais de desenvolvimento cerebral podem distorcer os achados de forma desproporcional em amostras reduzidas.

O desenho transversal impede qualquer conclusão sobre causalidade ou sequência temporal. Não é possível saber se as reduções de substância cinzenta existiam antes da apneia, se surgem como consequência dela ou se se modificam com o tratamento. Nenhuma criança foi acompanhada após receber tratamento.

Fatores que também influenciam o volume de substância cinzenta, como nutrição, ambiente socioeconômico e histórico de desenvolvimento, não foram controlados de forma sistemática entre os grupos.

O que este estudo não permite concluir?

Este estudo não prova que a apneia do sono causa dano cerebral permanente em crianças. Os dados mostram associação entre apneia moderada a grave e menor volume de substância cinzenta em um momento específico, não uma relação de causa e efeito demonstrada.

Também não é correto concluir que toda criança com apneia terá alterações cerebrais visíveis, especialmente em casos leves. O estudo avaliou apenas casos moderados a graves, e a variação individual é considerável.

A pesquisa não responde se o tratamento da apneia reverte as alterações estruturais observadas. Estudos com adultos sugerem que tratar a apneia melhora funções cognitivas, mas dados pediátricos específicos sobre reversão estrutural ainda são limitados e aguardam estudos longitudinais maiores.

Perguntas frequentes sobre apneia do sono em crianças

Apneia do sono em crianças causa dano cerebral permanente?

Este estudo encontrou reduções de substância cinzenta em crianças com apneia moderada a grave, mas não permite afirmar que o dano é permanente. A amostra foi pequena e nenhuma criança foi acompanhada após iniciar tratamento. Estudos maiores e longitudinais são necessários para responder essa questão.

Como saber se meu filho tem apneia do sono?

Os sinais mais comuns são ronco frequente e intenso, pausas visíveis na respiração durante o sono e cansaço ou dificuldades de concentração durante o dia. A confirmação é feita por polissonografia. Crianças com esses sinais devem ser avaliadas por um pediatra.

Qual é o tratamento para apneia do sono em crianças?

A causa mais frequente em crianças é o aumento de amígdalas e adenoides. Nestes casos, a remoção cirúrgica costuma resolver o problema. Em outras situações, pode ser indicado o uso de CPAP ou aparelhos intraorais. O tratamento é definido por pediatra ou otorrinolaringologista após avaliação completa.

A apneia do sono em crianças afeta o desempenho escolar?

Estudos observacionais associam a apneia do sono a dificuldades de atenção, memória e comportamento em crianças, o que pode interferir no desempenho escolar. Essas associações são consistentes com as regiões cerebrais comprometidas no estudo, mas a relação causal direta ainda está sendo investigada.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação com um médico. Crianças com suspeita de apneia do sono devem ser avaliadas por um pediatra, que pode indicar encaminhamento para especialista em medicina do sono ou otorrinolaringologia. No SUS, essa avaliação pode ser solicitada na unidade básica de saúde de referência.

Referências

Kheirandish-Gozal L, et al. Childhood Obstructive Sleep Apnea Associates with Neuronal Differences in the Insular Cortex, Hippocampus, and Parahippocampal Gyrus. Scientific Reports. 2017. Publicado em março de 2017. Nota de imprensa: EurekaAlert/UChicago Medicine

American Academy of Sleep Medicine (AASM). Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea. 2017.

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Distúrbios respiratórios do sono na criança. Disponível em: sbp.com.br

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