Vulcões que não explodem há dezenas de milhares de anos podem não estar realmente dormindo. Pesquisadores descobriram que essas montanhas adormecidas continuam a produzir enormes quantidades de magma sob a superfície, construindo reservatórios que podem alimentar futuras erupções devastadoras.
Um estudo publicado esta semana por vulcanólogos da Escola Politécnica Federal de Zurique mapeou 700 mil anos de história geológica do vulcão Methana, localizado perto de Atenas. O achado questiona como a comunidade científica define extinção vulcânica e expõe um vácuo perigoso: as previsões de risco vulcânico assumem que vulcões se tornam inativos após cerca de 10 mil anos sem erupção.
O segredo revelado pelos cristais de zircão
A chave para desvendar o segredo estava em cristais minúsculos. Os pesquisadores analisaram mais de 1.250 cristais de zircão coletados em 31 locais diferentes do vulcão Methana, rastreando a idade desses cristais através da taxa de decaimento radioativo de elementos como o urânio.
Os cristais revelaram algo perturbador: durante o período mais longo de aparente dormência do Methana, que durou mais de 100 mil anos, houve um pico massivo de formação de zircão. Isso significa que, enquanto o vulcão não mostrava sinais de vida na superfície, seu interior fervilhava de atividade magmática intensa.
Olivier Bachmann, vulcanólogo sênior da equipe, compara os cristais a caixas-pretas naturais. “Cada cristal preserva um registro de quando se formou e as condições em que nasceu. Ao datar mais de 1.250 deles ao longo de 700 mil anos, conseguimos reconstruir a vida interior do vulcão com uma precisão que era impossível há uma década”, explica.
Como vulcões ‘respiram’ sob a terra
O trabalho revela que vulcões podem respirar no subsolo por milênios sem nunca quebrar a superfície. O pico de formação de zircão no Methana ocorreu durante um período excepcionalmente longo de quietude, que durou aproximadamente de 280 mil a 170 mil anos atrás.
Essa descoberta reescreve o que se conhece sobre vulcões dormentes. O Methana registrou mais de 31 erupções ao longo de centenas de milhares de anos, incluindo três eventos explosivos. Sua última erupção conhecida ocorreu há cerca de 2.250 anos e foi documentada pelo historiador grego Estrabão.
O vulcão faz parte do Arco Vulcânico do Sul do Egeu, uma cadeia de pontos quentes vulcânicos gerados pela tectônica de placas que atravessa as ilhas gregas. Esse mesmo arco inclui o vulcão Thera, que devastou a civilização minoica em Santorini aproximadamente 3.600 anos atrás.
O risco escondido por trás do silêncio
A pesquisa acrescenta evidências a um problema crítico: períodos de inatividade aparente podem ser enganosos. Comunidades humanas foram destruídas por cinzas, lava e gases tóxicos liberados por vulcões que pareciam seguros porque não mostravam sinais externos de atividade.
Esse padrão, onde magma se acumula silenciosamente durante dormências extremamente longas, pode não ser exclusivo do Methana. A implicação é clara: muitos vulcões em todo o planeta classificados como extintos podem estar apenas aguardando o momento certo para despertar, com reservatórios de magma muito maiores do que o silêncio poderia sugerir.
A questão que fica em aberto é perturbadora: quantos outros vulcões ao redor do mundo estão respirando no subsolo neste exato momento, invisíveis às nossas ferramentas de monitoramento?
Matéria original: https://www.sciencealert.com/extinct-volcanoes-may-not-be-extinct-after-all-scientists-say






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