O Vírus Epstein-Barr (EBV) é um dos patógenos mais inteligentes que existe. Estima-se que infecte 95% dos adultos em todo o mundo, e a maioria das pessoas nunca percebe. Agora, uma equipa de investigadores desenvolveu anticorpos que podem finalmente mudar esse cenário.
Um vírus que persiste durante décadas
O EBV entra no corpo geralmente durante a infância e, na maioria dos casos, causa apenas sintomas leves ou nenhum sinal. O problema é que ele nunca vai embora. Depois da infecção inicial, frequentemente apresentada como mononucleose infecciosa (a chamada “doença do beijo”), o vírus fica adormecido nos tecidos do corpo.
Essa persistência não é inofensiva. O EBV foi o primeiro vírus cancerígeno identificado em humanos, em 1964, e desde então foi associado a vários tipos de cancro, incluindo linfoma de Hodgkin e carcinomas nasofaríngeos. A investigação também já o conectou à esclerose múltipla e a outras complicações graves de saúde.
Como os novos anticorpos funcionam?
A equipa do Fred Hutchinson Cancer Center e da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, concentrou-se em duas proteínas presentes na superfície do vírus: a gp350 e a gp42. Essas proteínas são as “chaves” que o EBV usa para entrar nas células B, um tipo de glóbulo branco central no sistema imunitário.
“Encontrar anticorpos humanos que bloqueiem o Vírus Epstein-Barr tem sido particularmente desafiante porque, ao contrário de outros vírus, o EBV encontra uma forma de se ligar a praticamente todas as nossas células B”, explicou o bioquímico Andrew McGuire.
A estratégia da equipa foi usar ratos geneticamente modificados para produzirem anticorpos de origem humana. Quando expostos às proteínas gp350 e gp42, as células desses animais geraram respostas imunitárias precisas, permitindo isolar anticorpos altamente direcionados.
Resultados bom em ratos “humanizados”
Os investigadores isolaram 10 novos anticorpos no laboratório: dois direcionados à gp350 e oito à gp42. Quando testados em ratos com sistemas imunes semelhantes aos humanos, um desses anticorpos demonstrou proteção eficaz contra a infecção por EBV.
O próximo passo lógico seria avançar para ensaios clínicos em humanos, embora esse processo possa demorar anos. A esperança é que os anticorpos consigam não apenas prevenir a infecção inicial, mas também impedir a reativação do vírus em fases posteriores da vida, quando os riscos de complicações são maiores.
“Não só identificamos anticorpos importantes contra o Vírus Epstein-Barr, como também validamos uma abordagem inovadora para descobrir anticorpos protetores contra outros agentes patogénicos”, afirmou a bióloga Crystal Chhan, uma das autoras do estudo.
Por que esta descoberta importa?
O EBV é considerado um dos vírus mais disseminados da humanidade, mas durante décadas faltaram ferramentas eficazes para combatê-lo de forma direta. A maioria dos tratamentos atuais ataca os sintomas, não o vírus em si.
Esta investigação abre caminho para possíveis terapias baseadas em anticorpos monoclonais, semelhantes às que já se usam para outras doenças. Se os resultados se confirmarem em humanos, poderemos estar diante de uma forma de prevenir complicações graves associadas a um vírus que quase toda a população mundial carrega sem saber.
Uma abordagem que pode ir além do EBV
Além do potencial contra o EBV, a metodologia usada nesta investigação pode servir de modelo para o desenvolvimento de anticorpos contra outros vírus difíceis de tratar. A técnica de usar ratos humanizados para gerar anticorpos com estrutura idêntica à humana pode acelerar a criação de terapias para doenças onde atualmente não existem opções preventivas eficazes.
Matéria original: https://www.sciencealert.com/scientists-develop-new-antibody-for-virus-that-infects-95-of-people






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