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Ponte dentária de ouro revela história esquecida da odontologia escocesa

Mandíbula medieval com ponte dentária de ouro revela sofisticação da odontologia escocesa 500 anos atrás. Descoberta muda entendimento sobre cuidados bucais antigos.

Mandíbula esqueletizada com vista dos dentes e arame de ouro enrolado em torno de duas peças dentárias
Mandíbula esqueletizada com vista dos dentes e arame de ouro enrolado em torno de duas peças dentárias

Uma mandíbula inferior escavada numa antiga igreja medieval de Aberdeen guarda um segredo de cinco séculos. Um arame de ouro enrolado em torno de dois dentes representa a evidência mais antiga de uma ponte dentária já encontrada na Escócia, segundo estudo publicado esta semana no British Dental Journal.

O proprietário original dessa mandíbula era um homem de meia-idade que viveu entre 1460 e 1670. Ele havia perdido um dente incisivo e recorreu a um método surpreendentemente sofisticado para a época: um fio de ouro de 20 quilates enrolado em torno de dois dentes vizinhos para preencher o vazio deixado pela perda dentária.

Como funcionava esse sistema primitivo de ponte?

O arame de ouro fazia um trabalho duplo. Primeiro, estabilizava os dois dentes saudáveis aos quais estava preso. Segundo, criava uma estrutura que podia sustentar tanto o dente original perdido quanto uma versão falsa feita de osso ou outro material disponível.

Rebecca Crozier, bioarqueóloga da Universidade de Aberdeen e autora do estudo, explicou o incômodo que o procedimento causava. “A aplicação do arame teria certamente provocado desconforto durante o procedimento”, disse ela. Porém, a maioria das pessoas se adaptava à sensação após algumas semanas. “O homem provavelmente pararia de notar a presença do arame depois de um tempo”, acrescentou.

Os sinais de desgaste deixados pelo fio na raiz de um dos dentes âncora revelam que ele permaneceu na boca do homem por muitos anos, talvez décadas. A pressão constante do metal contra o osso deixou marcas visíveis que persistem até hoje.

O que a mandíbula revela sobre a saúde bucal medieval?

O esqueleto preservava nove dentes no total. Além da perda do incisivo central direito, o homem sofria com placa endurecida em todos os dentes, cáries em três deles e periodontite causada por retração gengival. Sua higiene bucal era claramente precária pelos padrões modernos.

Apesar dos problemas dentários, ele não estava sozinho em seu sofrimento. Dentes danificados e doentes eram normais na Europa medieval. O que o diferenciava era o acesso a um procedimento sofisticado de reparo que envolviam metal precioso e conhecimento técnico.

Quando a odontologia começou a existir como prática?

Os pesquisadores ressaltam que a odontologia como profissão organizada só surgiu no século 19. Porém, barbeiros, curandeiros e até joalheiros realizavam procedimentos dentários improvisados há séculos antes disso.

De fato, existem evidências arqueológicas de preenchimentos dentários datando de pelo menos 13 mil anos atrás. Na Europa medieval, o procedimento de prender dentes soltos com arame era uma técnica bem documentada em vários tratados médicos da época.

A mandíbula foi descoberta na escavação da Igreja St. Nicholas East Kirk em Aberdeen, um edifício que provavelmente data do século 11 e funcionou como templo até a Reforma Protestante no final do século 16. Durante seu uso, mais de 900 pessoas foram enterradas no local, deixando milhares de ossos para futuras gerações estudarem.

Por que esse achado importa hoje?

A descoberta desafia a ideia de que a odontologia moderna é uma invenção recente que não tem precedentes. Mesmo sem anestesia, antibióticos ou técnicas estéreis, pessoas da Idade Média conseguiam identificar problemas bucais e implementar soluções criativas.

O caso também ilustra uma verdade incômoda: a desigualdade no acesso a cuidados dentários não é nova. Apenas alguém com recursos suficientes para pagar um joalheiro ou curandeiro poderia arcar com um arame de ouro de 20 quilates. A maioria das pessoas simplesmente perdia seus dentes e pronto.

O arame dourado guardado em Aberdeen permanece como testemunho silencioso de um homem que não aceitou a perda. Cinco séculos depois, ainda podemos ver o desgaste causado por sua determinação em mastigar novamente.

Foto: www.kaboompics.com no Pexels

Matéria original: https://www.livescience.com/archaeology/500-year-old-gold-dental-bridge-is-earliest-known-oral-care-of-its-kind-in-scotland-and-it-likely-held-a-fake-tooth

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