Um Organismo Inusitado Resistente à Radiação
Em locais como Chernobyl e Fukushima, onde desastres nucleares inundaram o ambiente com radiação perigosa, é natural que a vida evolua maneiras de sobreviver a essa ameaça. Entretanto, um dos organismos mais resistentes à radiação descobertos não vem de nenhuma área radioativa. O arqueano Thermococcus gammatolerans suporta uma dose extraordinária de radiação de 30.000 grays — 6.000 vezes maior que a dose letal para humanos.
Habitat Profundo e Hostil
No Guaymas Basin, no Golfo da Califórnia, a cerca de 2.600 metros abaixo da superfície do oceano, ventos hidrotermais liberam fluidos superaquecidos e ricos em minerais para a escuridão ao redor. É nesse ambiente que o T. gammatolerans se instala, longe de qualquer estrutura humana, muito menos perto de um reator nuclear.
Além disso, esses campos hidrotermais representam regiões onde o fundo do oceano se rompe, permitindo que o calor vulcânico e a química geotérmica invadam a água. Portanto, entre a pressão esmagadora das profundezas do batipelágico e o calor extremo, esses locais são incrivelmente inóspitos para a vida humana. Por isso, queremos entender como a vida consegue não só sobreviver, mas prosperar ali.
Descoberta e Estudo do Arqueano
T. gammatolerans foi descoberto décadas atrás, quando cientistas coletaram amostras de microrganismos em um desses respiradouros por meio de um veículo submersível. Posteriormente, a equipe liderada pelo microbiologista Edmond Jolivet, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, expôs as culturas a 30.000 grays de radiação gama provenientes de um césio-137.
Surpreendentemente, uma espécie continuou a crescer mesmo após essa exposição extrema. Essa espécie era justamente o arqueano T. gammatolerans, que vivia tranquilamente nos respiradouros de Guaymas, demonstrando resistência a uma ameaça à qual dificilmente seria exposto no meio ambiente.
Adaptações e Mistérios Genéticos
Embora T. gammatolerans tolere temperaturas em torno de 88 graus Celsius e se alimente de compostos de enxofre, a resistência à radiação não parecia essencial para a sobrevivência em seu habitat natural. Ademais, um estudo genômico realizado em 2009 por uma equipe da Universidade de Paris-Saclay, liderada pelo microbiologista Fabrice Confalonieri, não encontrou uma quantidade excepcional de genes relacionados à proteção e reparo do DNA; o equipamento genético do arqueano era surpreendentemente normal.
Portanto, se a resposta não estava no DNA, talvez estivesse no próprio processo de reparo. Um estudo de 2016, conduzido por Jean Breton da Universidade Grenoble Alpes, investigou o efeito da radiação ionizante sobre o T. gammatolerans e como ele responde. Após expor colônias a doses de até 5.000 grays de radiação gama, os pesquisadores constataram que, embora os raios ainda causem danos ao DNA — o micro-organismo não é invencível —, o dano oxidativo causado pelos radicais livres foi muito menor do que o esperado.
Além disso, boa parte desse dano foi reparada em até uma hora, graças à ação rápida das enzimas de reparo.
Considerações Finais
Essa fascinante habilidade de reparação e resistência abre novas perspectivas para diversas áreas científicas. Por exemplo, os avanços em terapia celular contra o câncer podem se inspirar nesses mecanismos naturais para superar seus próprios desafios. Além disso, entender essas defesas moleculares pode auxiliar em estudos relacionados à doença renal e outros impactos do estresse oxidativo no organismo.
Matéria original: https://www.sciencealert.com/this-extreme-radiation-resistant-organism-evolved-a-remarkable-ability






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