Saúde

Longevidade humana: estudo com centenários revela novos segredos do envelhecimento

By Dr. Paulo Budri

January 20, 2026

A longevidade humana sempre despertou fascínio científico. Embora a expectativa média de vida gire em torno de sete décadas, algumas pessoas desafiam as estatísticas e chegam aos 100 anos ou mais.

Um grupo ainda mais raro ultrapassa os 110 anos, sendo classificado como supercentenários.

Esses indivíduos excepcionais podem guardar pistas valiosas sobre os mecanismos biológicos que permitem uma vida longa e saudável. Apesar de avanços importantes, cientistas ainda buscam respostas claras sobre como genética, ambiente e estilo de vida interagem para determinar a longevidade humana.

Falta de dados limita pesquisas sobre longevidade

Segundo pesquisadores envolvidos em um estudo longitudinal com centenários e supercentenários no Brasil, a escassez de dados de populações diversas pode ser um dos principais obstáculos para compreender plenamente a longevidade humana.

Embora o Brasil não tenha uma das maiores expectativas médias de vida do mundo, o país abriga uma parcela significativa de centenários. Ainda assim, essa população permanece pouco estudada em comparação com grupos de países como Japão e Itália.

Em um artigo de opinião recente, os autores destacam que grande parte das pesquisas sobre longevidade se baseou em dados genômicos de populações relativamente homogêneas, o que limita a descoberta de fatores genéticos raros associados ao envelhecimento extremo.

Diversidade genética brasileira pode ser chave para a longevidade humana

A diversidade genética do Brasil está entre as mais elevadas do mundo, resultado de séculos de miscigenação entre povos indígenas, colonizadores europeus, africanos escravizados e ondas migratórias vindas da Europa e do Japão.

Essa combinação genética única cria uma oportunidade excepcional para investigar a longevidade humana sob uma nova perspectiva.

“Essa lacuna é especialmente limitante na pesquisa sobre longevidade, onde supercentenários com ancestralidades mistas podem carregar variantes genéticas protetoras raras”, afirma o gerontologista Mateus Vidigal de Castro, pesquisador do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco, em São Paulo.

Estudo brasileiro reúne centenários e supercentenários

A equipe formou uma coorte com mais de 160 centenários de diferentes regiões do Brasil, incluindo cerca de 20 supercentenários. Entre eles estava Inah Canabarro Lucas, freira reconhecida como a pessoa mais velha viva até sua morte em 2025, aos 116 anos.

O grupo também inclui dois dos homens mais idosos do mundo, um deles com 113 anos. Muitos participantes, além de alcançarem idades extremas, mantiveram boa capacidade funcional e autonomia.

“Notavelmente, alguns supercentenários brasileiros permaneciam lúcidos e independentes para atividades básicas do dia a dia”, relatam os autores.

Longevidade pode ser herdada em famílias

Um dos casos mais impressionantes do estudo envolve uma família com um verdadeiro aglomerado de longevidade: uma mulher de 110 anos e três sobrinhas com idades entre 100 e 106 anos.

Esses agrupamentos familiares reforçam a ideia de que a longevidade humana possui um componente hereditário, ainda que influenciado por múltiplos genes e fatores ambientais.

“Estudar esses raros grupos familiares oferece uma janela única para compreender a herança poligênica da resiliência ao envelhecimento”, destaca de Castro.

Genes são importantes, mas não explicam tudo

Apesar da relevância genética, os pesquisadores ressaltam que os genes representam apenas parte do quebra-cabeça. Estilo de vida, ambiente, acesso à saúde e fatores sociais também desempenham papéis essenciais na longevidade humana.

Ao ampliar a diversidade dos estudos, os cientistas esperam avançar na compreensão de como esses fatores interagem, contribuindo para estratégias que promovam envelhecimento saudável e vida longa em populações mais amplas.

Matéria original: https://www.sciencealert.com/something-about-brazils-oldest-people-may-reveal-missing-clues-on-longevity