Um experimento inédito revelou que os polvos conseguem entender reflexos em espelhos para localizar presas escondidas fora do seu campo de visão, uma habilidade cognitiva que antes era considerada exclusiva de animais vertebrados altamente inteligentes.
Quem gosta de biologia marinha como eu sabe que os polvos são criaturas extraordinárias, capazes de resolverem quebra-cabeças, abrir potes e camuflar-se na natureza. Mas um novo estudo publicado no comeco de junho de 2026 na revista científica Current Biology acaba de elevar o patamar da inteligência desses invertebrados.
Pesquisadores da universidade Dartmouth College comprovaram, pela primeira vez na história, que os polvos pertencentes à espécie Octopus bimaculoides, conseguem aprender a usar espelhos como ferramentas para encontrar comida que está diretamente invisivel aos seus olhos.
Polvos e espelhos: O experimento do “caranguejo fantasma”
Até hoje, a capacidade de usar um espelho para localizar objetos escondidos só havia sido documentada em animais vertebrados, como golfinhos, elefantes, chimpanzés e algumas aves. Para testar se os polvos conseguiriam fazer o mesmo, os cientistas criaram um desafio complexo:
- O polvo era colocado dentro de uma câmara opaca no centro de um aquário.
- À frente dele, havia apenas um grande espelho.
- Atrás das paredes opacas da câmara, os cientistas projetavam a imagem digital de um caranguejo em movimento (a presa favorita do polvo).
Por causa das paredes, o polvo não conseguia ver o caranguejo diretamente, apenas o seu reflexo através do espelho.
No início do teste, os polvos faziam o que qualquer animal faria: atacavam o espelho, achando que o caranguejo real estava lá dentro. No entanto, após apenas 10 a 12 tentativas, os animais perceberam o truque. Eles aprenderam a ignorar o reflexo físico do espelho, viravam as costas para ele e contornavam ou escalavam a parede opaca para pegar a recompensa real do outro lado. A taxa de acerto final foi impressionante: 73% das vezes.
Por que isso muda o que sabemos sobre a evolução?
Este estudo não é apenas uma curiosidade biológica divertida; ele quebra um paradigma científico sobre como a inteligência evoluiu no planeta Terra.
A Teoria da Evolução Convergente
Os seres humanos e os polvos compartilharam um ancestral comum pela última vez há mais de 520 milhões de anos (uma criatura ancestral muito simples, parecida com um verme). Nossos cérebros e sistemas nervosos evoluíram de maneiras completamente separadas e diferentes.
Mesmo assim, o polvo desenvolveu uma capacidade de mapeamento espacial e lógica visual extremamente parecida com a dos mamíferos. Na biologia, isso chama-se Evolução Convergente: quando a natureza encontra a mesma solução inteligente para resolver um problema em espécies totalmente destintas.
O Próximo Passo: Eles sabem quem são?
A capacidade de entender como um espelho funciona é considerada por muitos cientistas como o passo que antecede a autoconsciência (a capacidade de um animal reconhecer o seu próprio reflexo no espelho, teste que poucos animais, como os chimpanzés, passam).
Com a confirmação de que os polvos usam o espelho como ferramenta de navegação, os pesquisadores indicaram no artigo que o próximo objetivo é adaptar o famoso “Teste do Espelho de Gallup” para os polvos. Em breve, poderemos descobrir se, ao olhar para o espelho, o polvo sabe que está olhando para si mesmo.
Referência Científica: O artigo original “Octopus bimaculoides can learn to utilize a mirror to localize a reward outside the line of sight” foi publicado em junho de 2026 na revista Current Biology (pp. 1-2). Os dados públicos e o histórico da pesquisa podem ser checados através do link oficial Current Biology DOI: 10.1016/j.cub.2026.05.012 .
Créditos: Esta análise foi adaptada e simplificada por Paulo Budri com o objetivo de tornar a ciência de ponta acessível a todos.







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