Ciência

Polvos levam a uma nova reflexão sobre a evolução de cérebros grandes nos animais

By Dr. Paulo Budri

January 21, 2026

Por que os polvos têm cérebros grandes?

Uma ideia popular sugere que a presença de cérebros grandes está relacionada a uma vida social intensa. Entretanto, os polvos não seguem esse padrão, o que indica que outros fatores podem influenciar essa característica.

Cérebros grandes e vida social: o que dizem os mamíferos

Em mamíferos, geralmente acredita-se que cérebros maiores estão ligados a comportamentos sociais complexos, uma tese conhecida como hipótese do cérebro social. Além disso, quanto mais conexões sociais uma espécie possui, maior precisa ser o cérebro para gerenciar essas interações. Essa relação é observada em primatas, golfinhos e membros da família dos camelos.

O caso dos cefalópodes: polvos, lulas e mais

Porém, animais como os cefalópodes — incluindo polvos, lulas, chocos e náutilos — têm cérebros relativamente grandes e demonstram sinais de comportamento inteligente, embora vivam vidas principalmente solitárias. Além disso, apresentam pouca criação parental, dinâmicas sociais complexas ou aprendizado social.

Estudo revela relação entre ambiente e tamanho cerebral

Michael Muthukrishna, da London School of Economics, e colegas analisaram dados de 79 espécies de cefalópodes. Eles consideraram o tamanho do cérebro como o volume total do sistema nervoso central, o que é necessário porque o polvo, por exemplo, possui nove cérebros: um central na cabeça e oito menores, semi-independentes, em cada um dos seus braços.

Segundo Muthukrishna, “O que poderia ser mais diferente dos humanos do que essa espécie alienígena no nosso planeta, com seu cérebro multiapêndice e braços peculiares?”

Resultados principais do estudo

Os resultados não mostraram correlação entre tamanho cerebral e vida social, entretanto, indicaram que cefalópodes que vivem em águas rasas e habitats do fundo do mar apresentam cérebros maiores. Isso ocorre porque esses ambientes oferecem uma maior variedade de interações, objetos para manipular e até mesmo usar como ferramentas, além de maior riqueza calórica.

Por outro lado, espécies que habitam o alto mar profundo e sem muitos estímulos apresentam cérebros menores.

“Essa relação é bastante robusta,” afirma Muthukrishna. Contudo, ele ressalta que os dados de cérebro estão disponíveis para aproximadamente 10% das cerca de 800 espécies atuais de cefalópodes.

Opiniões de especialistas sobre o cérebro social

Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, que propôs a hipótese do cérebro social há cerca de 30 anos, comenta que não é surpreendente que os polvos não demonstrem esse efeito. Isso porque, ao não viverem em grupos sociais coerentes, seus cérebros não precisam realizar funções cognitivas extras associadas.

Paul Katz, da Universidade de Massachusetts Amherst, destaca que é possível que as espécies de cefalópodes que evoluíram para viver em águas profundas tenham reduzido seu tamanho cerebral, similar ao fenômeno de ilhas que gera redução de tamanho em animais. Entretanto, ele alerta que a correlação ainda precisa de mais estudos para confirmar essa hipótese.

A hipótese do cérebro cultural e conexões com outros estudos

Anteriormente, Muthukrishna publicou estudos com baleias e golfinhos, sugerindo que o tamanho do cérebro está ligado à extensão das interações sociais, comportamentos culturais e fatores ecológicos, como diversidade de presas. Além disso, o padrão semelhante observado em cefalópodes, que divergiram dos vertebrados há mais de 500 milhões de anos, reforça a hipótese do cérebro cultural desenvolvida por ele.

Portanto, compreender esses padrões amplia nossa visão sobre a evolução da inteligência, que pode não estar ligada exclusivamente à vida social, mas também a fatores ambientais e ecológicos.

Para saber mais sobre como o ambiente influencia diversas condições, confira também nosso artigo sobre doença renal.

Matéria original: https://www.newscientist.com/article/2512336-octopuses-prompt-rethink-of-why-animals-evolve-big-brains/?utm_campaign=RSS%7CNSNS&utm_source=NSNS&utm_medium=RSS&utm_content=home