Por que é fácil ser mal interpretado ao falar de probabilidade

Matemáticos se apoiam em números, mas encontrar palavras para explicar diferentes níveis de certeza tem sido um desafio desde os gregos antigos até os filósofos modernos mais renomados.

O colunista de matemática Jacob Aron conta a história de como um analista da CIA finalmente desvendou esse problema.

As palavras que usamos para probabilidade dificultam a compreensão

Se alguém te dissesse que “provavelmente” vai jantar macarrão, mas depois descobrisse que essa pessoa comeu pizza, você se sentiria surpreso ou até enganado? Em um contexto mais sério, o que significa quando a ONU afirma que é “muito provável” que a Terra ultrapasse 1,5°C de aquecimento na próxima década? Traduzir as imprecisões da linguagem para a especificidade da probabilidade matemática pode ser complicado – mas, surpreendentemente, essa tradução pode ser bastante científica, mesmo que tenha levado muito tempo para ser desenvolvida.

Existem duas palavras que quase todos concordam quando falam de probabilidade: “impossível”, que indica 0% de chance, e “certo”, que indica 100%. Mas entre esses extremos, tudo fica confuso. Gregos antigos como Aristóteles distinguiram eikos (o que é provável) de pithanon (plausível ou persuasivo). Isso já é um problema – alguém persuasivo nem sempre tem alta probabilidade de estar certo. Para piorar, essas palavras eram usadas às vezes como sinônimos, levando o orador romano Cícero a traduzi-las ambas como probabile, raiz da palavra “probabilidade”.

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A ideia de uma abordagem matemática mensurável para a probabilidade só surgiu no século XVII, durante o Iluminismo, por matemáticos interessados em resolver problemas de jogos de azar, como dividir ganhos de forma justa caso um jogo fosse interrompido. Na mesma época, filósofos começaram a questionar se seria possível quantificar níveis diferentes de crença.

Por exemplo, em 1690, John Locke classificou os graus de probabilidade em um espectro, desde a convicção geral de todos os homens, passando pela confiança na própria experiência, até o testemunho enfraquecido por ser de segunda ou terceira mão – um princípio legal importante em seu tempo e ainda hoje.

Essa ligação entre direito e probabilidade permaneceu relevante para filósofos. No século XIX, Jeremy Bentham comentou que a linguagem comum era “lamentavelmente deficiente” para expressar a força das evidências dadas por uma testemunha. Ele propôs que as pessoas avaliassem sua crença em uma escala de 0 a 10, onde 0 significaria nenhuma persuasão. Porém, concluiu que a subjetividade dessa escala tornaria sua aplicação na justiça inviável.

Um século depois, o economista John Maynard Keynes rejeitou essa escala de Bentham, preferindo uma abordagem mais relacional para a probabilidade, sem focar em números exatos. A história dessa busca mostra como é desafiante traduzir incertezas em palavras precisas.

Matéria original: https://www.newscientist.com/article/2510651-why-its-easy-to-be-misunderstood-when-talking-about-probability/?utm_campaign=RSS%7CNSNS&utm_source=NSNS&utm_medium=RSS&utm_content=home